quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Dois Gumes

- Nossa... o senhor derrotou um dragão...
- Bem... em defesa dele, não era um dragão adulto... além do que, eu não estava muito... “dono de mim mesmo”
- Mas, mesmo assim... nossa... sua espada é muito forte...
- Sabe criança... o gume que protege pode ser também o gume que machuca...


Depois de vencer o dragão as coisas mudaram.

Os dias novamente eram arrastados, e parecia que enxergar aquilo que eu poderia ser tinha causado problemas ao amor que eu partilhava com Asami. Por um lado ela sentia medo daquele “eu impulsivo”. Por outro lado, eu me sentia estagnado, como se um negror corroesse meu espírito.

A Academia cada vez mais cobrava de nós alunos, e, ao passo que eu ficava cada vez mais sem me importar com as coisas, Asami ficava cada vez mais preocupada e nervosa. Brigamos diversas vezes por isso, e os sorrisos me faziam cada vez mais falta. Sempre quis que ela se divertisse mais com os estudos, mas, acho que por inexperiência, cada vez que eu lhe dizia para ter calma ela interpretava como uma bronca, ou uma repreensão.

E foi assim que me vi mais uma vez em um dos testes. Eu trajava uma armadura de batalha, pesada, que beliscava minha pele. Portava uma grande espada montante e um elmo que limitava bastante minha visão. Asami com seus trajes clericais e seu báculo. Meus outros companheiros armados e prontos para a batalha.

E, mais uma vez, foi um teste árduo. Companheiros caíram naquele dia, exaustos. Armaduras se partiram, machados empenaram, lanças se quebraram. O peitoral que eu vestia trincou-se por diversas vezes, a cada golpe que eu me postava na frente de Asami para defendê-la.

Minha espada já pesava muito em minhas mãos, e cada golpe que eu desferia era um esforço sem par para mim. Nossos adversários, Trolls das cavernas, criaturas de fúria e bestialidade, pareciam saber que eu me mantinha de pé apenas por vislumbrar meu amor, e a atacavam sem piedade.

E eu sofria cada golpe, porque eu não admitiria que nada mais a machucasse.

Nesse fim de tarde, quando todos estavam caídos, e apenas eu e Asami estávamos de pé, cercados por três remanescentes dos Trolls, eu ergui a espada mais uma vez. Um corte amplo, um golpe carregado muito mais de desespero do que de força e técnica.

Esse golpe jogou no chão os Trolls. Esse golpe os decapitou, nos tornando vencedores.

E esse golpe feriu Asami no peito.

Por todo o tempo seguinte, não me lembro bem do que ocorreu. Acho que a falta de visão que meu elmo causava foi uma das culpadas por aquele golpe. Tenho certeza que o desespero foi o ponto chave. Uma espada de dois gumes. Um protegeu, o outro feriu.

Tentei visitar Asami na ala hospitalar, mas uma das clérigas não deixou que eu me aproximasse dela. Tomado por vergonha e desespero, parti.

Vaguei por ruas escuras e becos estranhos. Vesti minha capa de viagem, coloquei alguns suprimentos na algibeira e deixei a cidade pra trás. A espada ficou. Não levaria comigo item maldito, instrumento com o qual profanei meu amor.

Era o fim de meu caminho, eu soube, e, por dias, pela estrada, vaguei.

Era um final de tarde, como aquele final de tarde que pesava no meu peito. Avistei uma caravana comercial. Estavam cercados por goblins, salteadores de estrada. Como aqueles com os quais me deparei ainda criança. Eram, todavia, muito mais goblins do que aqueles que nos haviam atacado, tantos anos atrás. Eram centenas, todos armados, e os guardas da caravana jaziam no solo, mortos.

E, sem pensar, sem espada, sem armadura ou escudo, eu os enfrentei. Havia ali pessoas a serem protegidas, e esse era meu dever. Me isolar e me afastar disso era negligenciar minha própria essência. Como tinha sido tolo. Como pude virar às costas para a única coisa que fazia sentido realmente.

Naquele fim de tarde eu lutei, com nada mais que meus punhos. E após minutos, ou horas, que pareceram dias, os goblins, apavorados e com seus espíritos quebrados, fugiram. Os sobreviventes da caravana saltaram de suas carroças, e, em uma delas, eu a vi.

Asami, com bandagens em torno de seu tronco, suas vestes clericais. Linda, como sempre. Ela me olhava entre um misto de dor, sofrimento, angústia, choro, saudade, sorriso e alegria.

Pensei em me aproximar, mas a mesma clériga que me impediu uma vez estava lá, me olhando com escárnio e reprovação, me impedindo mais uma vez de me aproximar dela.

Então o bardo tocou meu ombro e sorriu, e eu finalmente compreendi. Precisava crescer, precisava sair dali. E se Asami fosse meu amor verdadeiro, então, quando eu retornasse, ali estaria. E comigo iria ficar.

Sorri pra ela, virei as costas e caminhei até o porto, onde o bardo, através de seus conhecimentos, conseguiu para nós um navio e uma tripulação. “Passe alguns meses no mar, e ele lava sua alma” ele me disse.

E, assim, eu me levantei e deixei o vento guiar meu navio, sem certeza de em qual porto queria atracar... Afinal, criança, já fiz isso tudo, e muito mais coisas que não lhe contei, e, pra ti, pareço velho...

Mas a verdade é que tenho apenas 22 anos, e ainda tenho muito mais aventuras pela frente...

Hoje voltei de minha jornada pelo mar, e talvez um dia eu lhe conte minhas aventuras, pois sim, foram muitas. É impressionante a vastidão do mundo, e em cada esquina há uma nova jornada.

Mas se você esquecer tudo o que lhe contei, lembre apenas de uma coisa: O bardo sempre esteve certo. Quando estiver frente a frente com os maiores desafios de sua vida, sorria. Sim, sorria, porque isso tornará esses desafios bem menores.

Sabia das coisas, aquele bardo.


Fim (Por enquanto, rs)


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Bom, é isso aí pessoal! Chega ao fim minha primeira série de contos. Foi uma experiência nova e boa pra mim, afinal, nunca tinha conseguido dar seguimento a mais de um capítulo de texto, rsrs.

Agradeço aos que leram e comentaram. E sim, a história fica um tanto inacabada mesmo, mas minha inspiração-fonte pra esses contos também não chegou ao fim, de forma que daqui algum tempo, talvez esse velho de 22 anos volte a contar histórias para a criança que o ouve (e, muito provavelmente, quando ele voltar terá uns 23 ou 24 anos, rs).

Notei, desde que o blog começou, uma coisa muito importante: Evolução.

Nos comics, principalmente, pude ver o traço de meu amigo Rafero evoluir, pude ver as boas idéias de Mynnsen e Adele.

E reparei também que eu estagnei, tanto na escrita (onde sou pouquinha coisa) quanto nos desenhos (onde sou uma coisa um pouquinho melhor, rsrs). Estagnei e estava faz tempo sem treinar, sem me esforçar, sem aprender.

Por isso, a partir da semana que vem, os contos assumirão uma nova “cara”. Pois eu não quero abandonar a escrita, mas preciso voltar a desenhar.

Espero que tanto as novas histórias quanto as novas roupagens agradem a todos!

Vejo vocês no futuro. o/

9 comentários:

Rafero disse...

Pra comentar seu conto, acho q eu iria precisar fazer um review, cara (taih, vou guardar esse tema pra quando der m... ahn, pro caso de imprevistos).
Isso aí, evoluir sempre, estagnar sucks D<
(isso tbm dá post...)
Só não se perca no caminho \o

Mynssen disse...

Muito boa série cara!
Estarei no aguardo da próxima que com certeza será ainda melhor.
Teh mais!

P.S. Já eh a terceira vez que eu tento deixar um comentário, tá sinistro aqui.

Marcus Mattos disse...

Boa série cara e espero haja mtas a serem escritas com o mesmo estilo. espero sinceramente poder ajudar em contos futuros, quem sabe os do 23 ou 24?!
N sei como será a vida do cara do conto, mas com certeza ele n estará só.
parabéns pela saga mto bem tramada.
=P

Marcio Henrique disse...

Isso ai... evoluir sempre e com o foco e a certeza de fazer o melhor possível... Muito bom os contos e a forma com que você os escreve. Continue a escrever e se aperfeiçoar, enquanto eu continuo seguindo essa grande evolução...

Daniel Cavalcanti disse...

Fala gente! Queria primeiramente parabenizar vcs pelo conjunto da obra. Sou amigo do márcio e Marcus, esses dois ai de cima, e a algum tempo acompanho vcs. Preciso ler a história desde o início, mas é evidente a paixão com que vocês fazem esse espaço.
Comecei a escrever as aventuras da minha mesa de rpg também (prometo que não foi plágio!)e vou ler a história de vcs toda pra usar como fonte de idéias!
Continuem o grande trabalho, sorte pra vocês!

Rafero disse...

@Daniel Hahaha, podexá que ngm vai te atacar por plagio hahah Caso você queira um espaço para postar suas historias, você será mais que bem vindo aqui ;)

Rodox disse...

@ Daniel - Exatamente meu rapaz! Espaço aqui não tem faltado, e, como diz a mega tag na direita, "SubGhadernal Wants you!"

E, relaxa, é plágio não, é homenagem, hehehehehehhehe

Abração e obrigado pela atenção!

Daniel Cavalcanti disse...

Haha..tá no primeiro capítulo ainda... e sou amador! mas o link do meu blog tá aki: www.voandonaterradonunca.blogspot.com
Não é especializado como o de vocês, eu falo um pouco de tudo... mas tá ai a dica. Se gostarem me avisem ok?!
Abs

Rodox disse...

@ Daniel - Boa, vamos dar uma olhada sim... na verdade, tou indo ver agora. Abraço e até mais!