sexta-feira, 31 de julho de 2009

Romper Limites

- Caramba... foi assim que o senhor conheceu tia Asami... que bonito!
- Sim criança... foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram em minha vida...
- Nossa! Foi nessa época que o senhor enfrentou grandes desafios, não foi?
- Sim, sim... naqueles dias era como se nada pudesse dar errado...

Foram os dois melhores anos da minha vida.

Foram desafios sem conta. Uma bruxa que dominava mentes. Um clérigo maligno que drenava a água do corpo dos inimigos. Um curandeiro insano e megalomaníaco. Junto aos meus novos colegas de equipe e ao meu amor, todos esses desafios foram vencidos.

Nada fácil, verdade, mas em cada um desses, eu mantive um grande sorriso no rosto. Se eu estivesse ao lado dela, pra mim estava tudo bem. E cada ferida não importava, desde que eu visse aquele sorriso lindo ao final do dia. Usava de todas as minhas forças para fazê-la feliz e para defendê-la. E, confesso, me esforçava ao máximo, para estar à altura daquela menina.

Nesses anos eu também fiz bons amigos. Dentre eles, três se tornaram grandes companheiros. Sossamon e Dehon eram dois irmãos, tão parecidos quanto diferentes. Sossamon era mais diplomático, um tanto quanto reservado, mas sociável. Dehon era mais descolado, mais falante e galante, sendo sempre uma presença a nos alegrar. O terceiro desses bons companheiros era John, um rapaz bastante parecido comigo mesmo, só que com um pensamento objetivo diferente.

Novamente me vi cercado por amigos.

As semanas se encurtavam enquanto nossos exames se aproximavam. Nossa... quanta matéria tínhamos para revisar. As complicadas fórmulas de antídotos. As táticas e estratégias. Tudo aquilo povoava nossas vidas naqueles dias. Naqueles curtos dias, apesar de qualquer dificuldade, eu estava feliz. O bardo, meu amigo, sentava-se comigo durante as noites e ria alto, e conversava, e me dava dicas, conselhos, contava histórias. Grande cara, aquele bardo.

E, assim como era a cada período, as provas vieram bem antes de nos considerarmos totalmente prontos. Uma delas me amedrontava. Um cenário especial, apelidado de Kobayashi Maru. Um desafio tão difícil que diziam que era quase impossível. Mas lá estávamos nós em campo. Prontos à enfrentá-lo.

O combate era travado em uma grande arena circular, como um coliseu. Escombros pontuavam o local, podendo ser usados como cobertura. Espalhados em um canto, nós. Eu carregava uma espada de dois gumes, larga e afiada. Trajava uma cota de malha e elmo. Sossamon portava um machado e Dehon uma lança, ambos também cobertos por cotas de malha. John usava um peitoral metálico, um broquel, e um arco. Asami em seu belo manto e seu ornado cajado. Haviam mais duas pessoas nos ajudando.

No centro da arena, um dragão negro.

Seus olhos como ônix. Seu tamanho colossal. Suas asas negras, coriáceas e suas escamas brilhantes. Nossa, como era belo e ao mesmo tempo intimidador. Como era uma obra de arte da natureza, e ao mesmo tempo, tão letal. Senti medo, como nunca antes. Mas era um medo diferente, estranho, e eu não sabia exatamente por que.

Nos espalhamos para circundar o dragão. Usamos de tática, força bruta, magia. Tudo que tínhamos ao nosso dispor, e o dragão simplesmente não caía. Suas garras rasgavam nossa cota de malha e pele com extrema facilidade. Nossas armas pouco penetravam suas escamas rígidas. As magias de Asami pouco o afetavam, e as flechas de John se entortavam ao acertá-lo.

Minha espada estava chanfrada, e eu sangrava por dois ou três cortes. Sossamon correu até mim, apoiando Dehon. A lança empenada e o machado já ficara denteado. Asami me olhou, e pude ver em seus olhos que estava exausta pelo esforço contínuo. John estava com a aljava vazia.

Foi então que a criatura investiu contra nós como um vento muito forte. Fomos jogados no chão, e o dragão, como um deus da guerra, nos golpeou a todos. Garras, mordida, cauda. Sofremos uma chuva de ataques e estávamos prostrados. Tentei me levantar, mas meus braços e pernas não obedeciam. Não conseguia mais escutar nada, e mal enxergava. Estava tonto, e fiquei tentado a me entregar à inconsciência. Afinal, os responsáveis da Academia não deixariam que nós fôssemos mortos. Seríamos salvos pelos heróis experientes e seríamos apenas mais uma equipe que falhara ao Kobayashi Maru, que, de qualquer forma, era impossível mesmo.

Foi então que o dragão se ergueu e atacou Asami, caída.

O que lhe conto agora me foi contado quando acordei na ala hospitalar. Disseram que me levantei com fúria no olhar, segurando a espada chanfrada, e corri até Asami. O dragão soltou seu sopro de chamas, e meu corpo foi o escudo dela. Me disseram que eu corri então, enfrentando as chamas, até me aproximar da boca do dragão. E eu o ataquei, cravando a espada no céu de sua bocarra, atravessando osso e atingindo um ponto vital dentro de seu crânio.

Me disseram que o dragão tombou.

Quando acordei e olhei para o lado, vi Asami sentada em uma cadeira. Ela me olhava com carinho, e me disse que eu já estava desacordado faziam quatorze dias. Naquela tarde fui até as masmorras da Academia e vi o corpo do dragão. Realmente, havia ali a ferida que eu supostamente teria provocado. Mas eu não conseguia entender. Não era, de forma alguma, forte àquele ponto. Como?

O bardo então, como quem surge das sombras, estancou ao meu lado, dedilhando seu bandolim. Ele sorria, como sempre. Nossa, como ele sorria. Parecia tão feliz.

E, como quem lê meus pensamentos, ele cantou. Cantou grandes canções, e todas falavam da mesma coisa. A única coisa que havia me possibilitado um feito muito além de minhas capacidades. Um feito muito além de meus limites.

E eu finalmente entendi e sorri também. Realmente aquele bardo sabia das coisas.

Suas canções foram sobre amor.

3 comentários:

Rodoxfrog disse...

Postado, com um pequeno atraso. Espero que gostem do conto.

Realmente, as férias acabaram...

See ya!

Marcus Mattos disse...

Bom conto, me fazendo lembrar grandes aventuras...
po os nomes escolhidos foram legais, de onde vc os tirou?!?!
kkkkkkkkkk...
aguardo pelos proximos, esses contos estão cada vez melhores

Danijija disse...

Aaaaaaaaaaaaaai, que fofo de novoooo!
Meus comentários já estão repetitivos... u_u