quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Selo - Interlúdio 1

Alexander Khalembar parte em direção à criatura agigantada, cheia de ódio, preparando-se para um embate. Michelle observa aflita enquanto o cavaleiro segue com um sorriso. A criatura olha com fúria e avança com uma idéia fixa na mente. Matar.

E, enquanto isso, um deus observa um ladrão.





Era final de tarde, e, enquanto o deus observava, o ladrão corria. Não que houvesse roubado algo, e não que o deus não tivesse algo melhor a fazer. O elfo era apenas um dentre muitos aventureiros escusos e furtivos, com habilidade para desarmar armadilhas. Um ladino. O deus observava com interesse a fuga.

Porque do sucesso desta dependeriam talvez milhares de vidas.

O ladrão tentava atravessar uma floresta fazia horas. Antes disso havia corrido por uma planície. Antes disso esgueirara-se por entre as pedras de uma escarpa. E antes disso saltara uma alta muralha de cidade. Fugia com o diabo em seus calcanhares, pois ele era perseguido, e seu perseguidor parecia não se cansar.

O elfo tinha as solas dos sapatos se esfacelando, os joelhos doloridos, a boca seca. As mãos doíam e as pontas dos dedos estavam vertendo sangue pelo esforço ao atravessar o muro e a escarpa. A cada momento forçava-se a se agarrar à consciência, sabendo da importância da mensagem que precisava entregar.

E, atrás dele, os cascos. Sempre os cascos.

A cada vez que o elfo acreditou, por um instante, ter deixado seu perseguidor para trás, ouvia os cascos, o trote, o cavalgar. Sentia metade medo e metade desespero, e se punha a correr de novo. E, naquele exato momento, odiou a Floresta Alta.

Para se manter vigil, forçou-se a lembrar o porque de sua fuga. Estava no reino de Korhal, era noite, caminhava por uma ruela. Um contrato, dinheiro fácil. Espionar um nobre professor, um cavaleiro do reino, e depois relatar tudo para o contratante. Não precisaria combater, nenhuma armadilha para desarmar. Sem riscos.

Dinheiro fácil.

As coisas então começaram a ficar estranhas. O cavaleiro adentrou o Templo das Damas do Selo. Ele ouviu gritos, gemidos, barulho de espadas. Adentrou também o templo. Viu que o cavaleiro sangrava. Dúzias de outros cavaleiros estavam também feridos ou mortos. No centro, sete figuras distintas. Apressou-se em fugir dali, precisava avisar alguém. Sentiu algo curioso, uma sensação estranha, como se sua mente tivesse sido violada.

E uma das figuras partiu em seu encalço.

Fugia fazia quase um dia completo, sem comida, sem água, sem descanso. Precisava chegar ao reino vizinho e pedir ajuda. Korhal tinha problemas, e no reino vizinho poderia ter segurança de novo, e seu reino receberia ajuda. Poderia dormir.

Chegou em uma clareira cortada por um riacho. Parou. Por impulso ajoelhou-se à margem para beber. O sol já se escondia no horizonte, a floresta engolfada em uma penumbra suave. O líquido gelado desceu-lhe pela garganta depois de molhar-lhe os lábios. A doce delícia de um gole de água quando em uma sede atroz. Cascos.

Ergueu-se assustado, olhando para todos os lados, tentando descobrir para que lado deveria fugir. Ouviu uma voz, irritada, quase um sussurro:

- Você é esperto elfo – cascos –, esperto demais pro meu gosto. Me deixa irritado.

Cascos.

O elfo viu seu perseguidor adentrar a clareira, uma longa espada na mão direita, uma longa lança na mão esquerda. Corpo coberto por metal. Cascos.

O perseguidor irrompeu em uma carga de cavalaria, a lança apontada para o peito do elfo. O ladrão tentou se esquivar, mas foi lento, vencido pelo cansaço e pela perícia de seu algoz. Costelas foram destroçadas, um pulmão perfurado. Foi ao chão, gemendo, com dificuldade para sorver o ar, que parecia lhe faltar no peito.

- Foi uma boa caçada elfo – cascos –, mas me deixou irritado. Tudo me deixa irritado.

A lâmina da espada cortou a garganta do elfo, e a lança estocou mais uma, duas, três vezes. Espada e lança castigaram o corpo sem vida do ladrão. Golpes dados a esmo, guiados por irritação, fúria, ódio. Ira.

O perseguidor olhou por sobre o ombro. Seria uma longa cavalgada para encontrar seus camaradas.

Cascos.

Em algum lugar, o deus suspirou.



Continua...

4 comentários:

Marcus Mattos disse...

Boa...deixa como sempre uma vontade de ler mais...

Mynssen disse...

Realmente muito bom!
Mas sinto falta dos desenhos, nunca poderei ver o pobre elfo.. T.T

Marcio Henrique disse...

Muito boa a narrativa... Continue se esforçando e aprimorando, pois está cada vez melhor... Muito bom mesmo... E como sempre fica o suspense no ar...

Rafero disse...

Saco, o Mynssen fez spoiler... >_<