quarta-feira, 24 de junho de 2009

Vencendo Goblins

-Me conte sobre aquela vez em que vocês derrotaram uma Hidra de sete cabeças! Ou então, me conte sobre aquela vez em que lutaram contra aquele terrível Dragão de três chifres e seis asas! Ou ainda sobre a famosa Guerra dos Colossos!
-Hum...vou lhe contar sobre como nós derrotamos um bando de goblins bandoleiros.
-O que? Goblins? Ah, por favor... eles têm um metro de altura, aquela pele cinza cheia de manchas e bolhas, as menores armas do mundo e não colocam medo nem em criança! Quando os guerreiros da taverna falam deles sempre dizem “eram só uns goblins”.
-E você acha que nós começamos a carreira derrubando gigantes?

Eu tinha uns quatorze anos naquela época, carregava uma espada de madeira na mão e um sonho no peito. Queria ser um grande herói, daqueles que tem seu nome gravado na história, que são lembrados em conversas de tavernas e que os bardos cantam em suas canções. Eu era jovem e tinha amigos, e nos meus sonhos os meus amigos estavam lá, porque todo herói está também cercado por heróis. Éramos todos crianças com sonhos, e quando me lembro disso, um sorriso brota no canto do meu rosto.
Raleaf também carregava uma espada de madeira. Era um pouco mais baixo e mais magro que eu, mas seu espírito era algo que nos alegrava imensamente. Lembro que quando eu me calava, meio chateado, ele falava até não poder mais, e eu sempre acabava rindo ao invés de chorar.
Ordin era um moleque mais velho que eu, apesar de bem mais baixo, e ainda rio bastante ao lembrar o quanto ele detesta comparações com sua altura. Vivia dizendo que seria o maior ladino do reino, e que teria tesouros lendários, belas donzelas e que sempre escaparia da morte com um sorriso no rosto e piadas nos lábios. E, se bem me lembro, o fez várias vezes.
Ksoj era um garoto mais alto que eu, também era mais velho, era mais sério e mais soturno, por vezes parecendo se distanciar um pouco de nós, mas estando lá conosco. Tinha o dom natural da magia, ainda que sem treinamento, e sempre teve um pensamento bastante prático e estratégico.
Éramos amigos, companheiros e nos amávamos como irmãos. Éramos felizes.

Estávamos viajando pela floresta. Bem... "Floresta" é um termo muito grandioso, na verdade. "Viagem" também. O fato era que atravessávamos um bosque enquanto andávamos pra vila vizinha. Não me lembro o que íamos fazer lá, mas lembro que estávamos todos empolgados. Chuviscava. Eu tinha a espada apoiada nos ombros e a cabeça meio jogada pra trás. Estava rindo de alguma coisa engraçada que Raleaf contava, às gargalhadas. Ksoj andava um pouco atrás de nós, e acho que era o único que prestava atenção no caminho. Ordin andava na frente, e, se me lembro bem, cantarolava uma canção de um bardo bastante famoso. Éramos crianças, o mundo era maravilhoso e nada poderia acontecer conosco.

E então estávamos cercados por goblins.

Ksoj deu o aviso assim que notou, mas não pôde nos impedir de cair na arapuca. Seis goblins, com seu cheiro asqueroso, sua pele cheia de pústulas, suas lanças enferrujadas e seus sorrisos malignos. Falavam em uma confusão de sons, todos ao mesmo tempo, e entendíamos pouco, ou quase nada, do que diziam. Acho que queriam nosso dinheiro, ou talvez estivessem com fome e achavam que nós quatro seríamos uma boa refeição. Tive medo, disso me lembro vividamente. Segurei a espada na frente do corpo, com as duas mãos, em posição de combate. Só que nunca tinha entrado em um combate de verdade na vida.
Raleaf fez o mesmo, e pude ver que também sentia medo. Seu ombro direito tocou meu ombro esquerdo e ele ficou de lado para mim, olhando pra minha esquerda. Ordin pegou um pedaço de galho de árvore caído no chão. Ele não sorria. Seu ombro esquerdo tocou meu ombro direito e ele olhava para a minha direita. Senti mais do que vi Ksoj ficar de costas pra mim, e assim éramos um quadrado cercado por um círculo de goblins. Minha boca estava seca, engolia saliva com dificuldade, meus joelhos tremiam um bocado e minha respiração estava acelerada.
Os goblins atacaram primeiro, mais rápidos e mais experientes do que nós. Suas lanças nos provocaram alguns ferimentos logo de cara. Lembro que uma lança me atingiu um pouco acima do olho esquerdo, abrindo meu supercílio. Tenho a cicatriz até hoje. Ouvi Ordin grunhir enquanto um golpe de uma lança arranhou seu tornozelo. Acho que Ksoj e Raleaf foram feridos também. Foi naquela hora em que mais tive medo. Senti dor e os goblins continuavam sobre nós. E não tenho muito como explicar como vencemos.

Acho que os deuses rolaram bons dados pra nós.

Ksoj fez algum tipo de feitiço luminoso, que ofuscou a vista de dois goblins, e Raleaf aproveitou a oportunidade, acertando-os com a espada de madeira, deixando-os atordoados. Ordin golpeou o joelho do goblin que estava na minha esquerda, e eu bati na cabeça dele com a espada, fazendo-o cambalear. Sobravam ainda três goblins em bom estado. Um partiu pra cima de Ksoj, e outros dois vieram pra cima de mim e de Raleaf. Aparei um golpe de lança, por sorte, admito, enquanto Raleaf foi ferido na coxa e Ksoj se desviou de um ataque. Golpeei de cima pra baixo o goblin que tinha atingido Raleaf, acertando-o no ombro e fazendo sua lança cair no chão. Raleaf então acertou em cheio a cabeça do goblin cujo golpe eu havia aparado antes, colocando o bastardinho pra dormir. Ordin sorria e contava alguma piada infame enquanto acertava o goblin que tinha atacado Ksoj.
Éramos vitoriosos. Os goblins fugiram de nós. Nos sentimos deuses, mesmo cansados, tremendo, molhados de chuva e suor, com frio, sede, fome, feridos e doloridos. Éramos crianças com um sonho, e, embora tenhamos crescido desde então, dentro de nós continuamos a ser crianças com um sonho. Tivemos, e vamos continuar a ter, grandes desafios, mas cada adversário, grande ou pequeno, nos moldou como somos hoje.

Caminhamos muito antes de conseguir enfrentar gigantes.

(escrito ouvindo Through the Fire and Flames)

14 comentários:

Rodoxfrog disse...

Aí está! No prazo, com folga, hehehe.
Espero que gostem (e, se detestarem, critiquem para que eu possa melhorar!)

Abraços com carinho!!
Yata! o/

Marcus Mattos disse...

Se isso foi uma narrativa de uma boa aventura, foi feito de um jeito mto interessante. É sempre bom saber q em algum lugar aventuras boas nos diverte.
Continuem assim.
Abraço

Rafero disse...

Huahaaaa, mais easter eggs do que posso contar!
Aproved with honors!

Yuuko disse...

Parabens Rodolfoca...vi 4 personagens conhecidos aí..
rs

Lory disse...

matou a curiosidade...e diga-se de passagem com um bom texto, parabéns Rodoxfrog... :)

Abçs

Kikah disse...

mt manero o texto... gostei mt...

Vitor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vitor disse...

Pareabéns pelo blog^^
ta maneiro o texto e a formatação ta legal tb
=D

Marcio Henrique disse...

Gostei muito do texto e gostaria de acompanhar esses personagens até os gigantes... Continue escrevendo contos, destes ou de outros personagens, pois quem sabe não encontro um certo Mandrake por aí???

Angélica disse...

Criatividade e talento como um verdadeiro mestre nas letras, e não apenas nos dados!!! Parabéns pelo conto... gostei muito...

Rodoxfrog disse...

Obrigadoooo pessoal!!!!!

NosK disse...

Putz cara, muito legal.
Por um acaso esse é o material q vc disse q tava escrevendo e que me mandaria pra eu dar uma olhada?!
Bom, senti uma PEQUENA referências a pessoas conhecidas aí, e isso foi muito legal cara.
Continue escrevendo que continuarei lendo.
Abraços.

Rodoxfrog disse...

@Nosk - Obrigado rapaz XD
Não é esse o material que eu estava escrevendo. Esse (e outros) contos nasceram especialmente pra esse espaço.
E sim, continuarei escrevendo, podexá ^^

GIL disse...

,CARA!!! CONHEÇO CADA UM DESSES PERSONAGENS.
ADOREI O CONTO. EMOÇÃO , CARINHO E AMIZADE A FLOR DA PELE. ESPERO QUE ESSA AMIZADE PERDURE PARA TODO O SEMPRE.
CONTINUE ESCREVENDO.VC É REALMENTE UM MESTRE DAS LETRAS.
BEIJOS.