domingo, 28 de junho de 2009

Herói

- Tudo bem, tudo bem... nunca mais digo “são apenas goblins”. Mas...ah, o senhor bem que podia me contar uma história mais emocionante né?
- Hum...vou lhe contar a história de Lorde Althair.
- Ah... quem foi esse? Não é famoso, não deve ter feito nada importante!
- Sabe criança... se Lorde Althair não tivesse feito nada, você não teria este belo vilarejo para morar...

Eu tinha dezesseis anos quando isso aconteceu. Meus amigos tinham ido embora do vilarejo, cada um em busca de uma parte de um sonho próprio. Eu ficara. Amava aquelas terras e não queria me separar delas naquele momento. E, por causa dessa teimosia, tive um ano inteiro nada heróico. Arava os campos, tirava leite de vacas, dava comida aos porcos e cuidava das galinhas. Minha espada de madeira ficava quase que o tempo todo embaixo da minha cama, empoeirada. Estava ficando maluco, e cogitando fugir do lugar ao qual eu amava. Deixar tudo pra trás.

Foi quando conheci Lorde Althair.

Ele era um velho guerreiro, devia ter quase sessenta anos. Servira à guarda pessoal do rei e, enfim, estava voltando para sua terra natal, para gozar de uma merecida aposentadoria. Chegou na vila montado em um belo cavalo negro, de arção e sela militar. Trajava uma bela armadura de placas, polida e brilhante como prata nova. Tinha em sua cintura um par de espadas. Uma era longa e robusta, enquanto a outra era curta e mais afinada. Barreira e Ferrão, era como as chamava, e lembro que na época não entendia o nome da longa. “Ferrão” me parecia óbvio.

Lorde Althair foi para sua mansão. Uma grande casa de dois andares, toda de pedra, com telhado de palha nova. Tinha um estábulo na lateral esquerda, e todo o terreno era envolto por uma cerca branca de madeira. Lembro de ter ficado olhando para o velho enquanto ele cavalgava pra casa, junto com uma comitiva de quatro soldados e seis serviçais a escoltá-lo. Sorri amargurado. Jamais chegaria naquela posição ordenhando vacas! Mas a vila tinha sido a prisão na qual eu mesmo me encarcerei. Então parei de reclamar e retornei aos trabalhos diários.

E assim iam sendo meus dias. Monótonos e cinzentos. A espada de madeira apodreceu, e parte do meu espírito também apodrecia. Estava sentado na beira do rio que cruzava nosso vilarejo da marcação oeste até a marcação norte. A cada dois ou três minutos eu jogava uma pedra no rio e ficava olhando as ondulações. Naquela tarde ouvi passos, e me virei, avistando Lorde Althair. Usava calças simples, botas de cano alto e uma camisa branca de linho ou algodão, não me lembro. Tive a sensação de que aquele homem estava fazendo o mesmo que eu, e que, talvez, se sentisse tão prisioneiro quanto eu. Claro, tínhamos motivos diferentes. Ele, velho, com um corpo que não conseguia mais acompanhar seu espírito. Eu, jovem, com uma mente ainda não preparada para abandonar toda a segurança do que é familiar e seguir os impulsos de meu corpo.

Semanas depois, fomos atacados por Orcs.

Lembro-me de acordar no meio da madrugada ouvindo os gritos. Usando apenas uma calça e botas, saí de casa e vi o caos. Aquelas criaturas nojentas, medindo um metro e oitenta, empunhando lanças e espadas, trajando armaduras e urrando. Eram bestas que urravam de prazer a cada vítima caída. Alguns dos Orcs paravam frente às vítimas agonizantes ou mortas para lhes comer a carne. Tentei contar os Orcs, mas me perdi quando notei que deviam ser mais de trinta. Os soldados do vilarejo estavam sendo massacrados. Eu corri pela praça central, de cabeça baixa, até a casa de Lorde Althair. Diabos, ele era um grande herói e poderia dar conta desses monstros.
Acho que demorei uns dez minutos para chegar à entrada de sua mansão. O Lorde vinha já trajando sua armadura, com Ferrão desembainhada, e um escudo grande em sua mão esquerda. Meu coração se encheu de esperança.

Mas havia algo errado. Seus olhos... tão tristes... como se a vontade de continuar tivesse desaparecido dele.

Gritei pra ele e corri em sua direção. Ele me viu, e viu o Orc que me perseguia sem que eu tivesse notado. Investiu em nossa direção, e Ferrão rasgou a garganta da fera. O sangue negro escureceu o solo, e eu senti medo. Ele me olhou fundo nos olhos e disse algo como “Fique atrás de mim garoto”. Obedeci, e ele começou a avançar a passos lentos. Os Orcs começaram a convergir para cima dele. E o que vi naquele dia só posso descrever como miraculoso. Aquele homem velho e cansado matava Orc após Orc, com uma frieza de movimentos que me assustava. Cheguei a pensar que ele venceria sozinho.

Ledo engano.

O tempo é implacável, e corrói desde a montanha mais alta ao menor dos seres. Não fora diferente com Lorde Althair. Os Orcs o feriam cada vez mais, e cada vez menos ele conseguia causar danos maciços nas criaturas malignas. Ele então me olhou por cima de seus ombros, e acho que pude ver uma lágrima escorrer de seus olhos. Ele me disse “Garoto, pegue um cavalo e vá até a cidade vizinha! Peça Ajuda! Eu vou segurá-los”.

Os Orcs riram diante de tal bravata, e eu corri. Tinha medo e corri como nunca em direção ao estábulo de Lorde Althair. Montei no cavalo negro, e o instiguei a uma corrida forte, para que pudéssemos sair da vila. Olhei mais uma vez para a praça, e aquele velho guerreiro era agora o oponente de cerca de trinta Orcs. Sua armadura estava lascada em vários pontos. Seu sangue escorria por entre as placas prateadas. Seu escudo jazia no chão, quebrado. Ferrão tinha sido entortada por um machado Orc. Vi Lorde Althair me olhar por cima do ombro mais uma vez. Ele então sacou sua espada larga e bradou contra os Orcs. As últimas palavras que ouvi daquele homem ficaram marcadas à ferro na minha alma.

“Bestas! Hoje vocês entenderão o significado da palavra Barreira! É algo que se interpõe entre alguém e seu objetivo! E eu lhes juro, vocês não chegarão àquele garoto!”

Não fui seguido por Orcs. Cavalguei até chegar à cidade vizinha. Consegui ajuda, e cinqüenta cavaleiros responderam ao chamado e venceram os Orcs.

Naquela noite Lorde Althair Faleceu.

Naquela noite eu aprendi o que é ser Herói.

(Escrito ouvindo Godsmack - I Stand Alone)

8 comentários:

Rodoxfrog disse...

No prazo!!! (Confundido, mas no prazo!!! hehehehehe)

Espero que gostem!

Boas noites pra todos! o/

Rafero disse...

Ai, que droga >D
Me deixa, seu chato >D
Noto seu apreço por campanhas... vai ser a historia completa do garoto, passo-a-passo mesmo?

Yuuko San disse...

Eu ja chamaria a longa de Barreira e a menor de ferrão(seria o meu óbvio).. xD (mas...WTF nee?? Podem falar "whataaa-se yourself" hehe)
Bom, histórias com capítulos são legais...eu to gostando!

Rafero disse...

Mas eh isso mesmo o___o
Final do segundo parágrafo...

Yuuko San disse...

Ops...Lapso da leitura-rápida!

Lory disse...

Aprovado :) vai ser massa acompanhar os capítulos...


Abçs, meninos... o/

Marcus Mattos disse...

Realmente acompanhar esses capitulos está sendo mto legal..passo a passo uma grande aventura com histórias q marcam.
Mandando bem Rodox...

Marcio Henrique disse...

Esse Lord Althair é realmente inspirador... Será que um dia serei igual a ele? Afinal ele protegeu o personagem como um pai... Bastante emocionante a história. Continue assim... Abraços.