Falaê, povo!
Completei o primeiro Ato de Rokugan e para aqueles que não tem muito tempo pra passar na net, como eu, resolvi publicar como um arquivo pdf!
Que emoção! Meu primeiro E-Book!!!
E, até que este blog evolua para um site, continuo preso ao 4Shared:
Rokugan Ato 01 - Escorpião
É bem tranquilo de fazer o download nesse servidor, o botão Download é bem chamativo, daí você espera alguns segundos e baixa, então.
Prometo que isso será remediado e passarei a ter Links Diretos para sua maior comodidade ;)
Abração pra todo mundo e, a seguir, no Ato 02, as Garças.
\o
PS.: Só pra lembrar, são sete atos ao todo =)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Rokugan - Escorpião Completo
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Kantera - Poema
Do Tigre não possuo a imponência
Também nas montanhas não fiz residência.
Tive sorte e consegui sobreviver.
Até hoje e essa história
Poderei te fazer conhecer.
Pois as montanhas que citei
Não foram onde nosso heroi nasceu.
Ele, primogênito do rei,
Com o tempo
Teria um reino pra chamar de seu.
Diria que era um herdeiro imponente
Caso tal afirmação fosse pertinente.
Era óbvio a todos que olhassem
De perto ou longe sua seu semblante,
E suas asas constatassem.
“Uma aberração”, alguns exclamariam.
“História de e para bêbados”, outros diriam.
Porém, a confirmação deste boato
Só se deu após toda uma vila
Visse sua chegada do alto.
De onde vinha, não perguntaram.
Seus objetivos, ninguém questionou.
Apenas sua beleza,
Todos admiraram
E lamentaram quando voou.
Queriam saber de onde vinha
Para onde iria
O que desejava, o que procurava.
Mas isso só perceberam,
Quando somente a lembrança restava.
(Continua...)
Rokugan - Escorpião I
Um novo dia nasceu. O sol se infiltrou pelas pequenas entradas no teto.
Massashiro afastou o cabelo dos olhos, antes de levantar. Pensou sobre o que o esperava neste novo dia.
Protocolos de etiqueta extremamente entediantes. Exatamente como no dia anterior.
Hostilidade dos clãs irmãos. Como sempre.
Imaginou que estes não são pensamentos que atraem bons fluidos, mas não pôde evitá-los. Já estava cansado de tanta repetição, tanta tradição.
Tanto vazio.
Após levantar, tomar banho, comer e se vestir, já tinha parado de mentalizar esses pensamentos. Mas eles continuaram presentes.
Era apenas mais um dia, ele estava novamente preparado para ter todas as suas palavras estudadas pelos que ouviam. Eles pensariam sobre elas, refletiriam sobre seus significados ocultos, remoeriam mais uma vez para ter certeza.
Só então responderiam. E mesmo assim, não acreditariam no sentido literal das mesmas, nem nos segundos significados que teriam encontrado. Nem nos terceiros e quartos, em caso de maior criatividade.
Entristecia-o um pouco esse fato, mas não muito. Como seu pai já havia dito, Massashiro não nasceu ou foi criado para ser um sentimentalista.
Ele era prático, racional e calculista.
A fama de seu clã era algo que o irritava, mas era compreensível. Tantos séculos e incontáveis gerações de maquinações e segredos levaram a este estado de desconfiança constante com todos os membros dos outros clãs.
Mas era exagero dizer que foram incontáveis gerações; todas elas são devidamente registradas e estudadas.
E, claro, as maquinações nunca foram o problema. O problema sempre foram as mal executadas, consequentemente descobertas.
Ele compreendia isso. Sabia que eram necessárias. Não era esse o problema.
Soldados usam espadas, escritores se valem das penas, cozinheiros não existem sem panelas.
E os Escorpiões usam as pessoas.
(Continua...)
Strange - Relógio
Ele era apenas mais um estranho em terras estrangeiras. Dizia e demonstrava que adorava viajar.
Não havia sido criado para acreditar em superstições e coisas do tipo. Na verdade só veio a conhecer o termo “sobrenatural” na adolescência. E passou a ter um interesse superficial por isso. Mas voltemos a isso mais tarde.
Naquele inverno ele viajava pelas absurdamente frias terras da Europa Ocidental. A Velha Europa Ocidental. Com seus muitos vilarejos antigos, com costumes antigos e crenças ainda mais antigas.
Conseguiu uma ótima hospedagem, ainda mais se for incluso as histórias que ouviu do dono do albergue. Em sua totalidade, histórias sobre fantasmas e maldições.
Engraçado que, do momento que esse tema passou a permear seus pensamentos, ele parecia estar em todos os lugares.
E foi com uma dessas histórias em mente que ele desceu à parte abandonada do vilarejo.
Tudo começou com pesquisas na internet, é claro. Filtrando um pouco, ele conseguiu algumas informações um pouco mais “sérias” sobre ocultismo em geral.
Coisas simples como uma origem menos fantasiosa pra lenda dos lobisomens (que ainda incluía transformações, contudo), uma visão do paganismo sem a distorção do cristianismo, entre outras coisas.
E assim, com dados um pouco mais críveis, passou a buscar mais histórias assim. Sua motivação veio do fato que as fontes mais puras não tinham acesso à internet.
Ao se tornar um jovem adulto, passou a trabalhar pra possuir economias e viajar pelo mundo, em busca dessas histórias. Talvez para colocá-las na internet. Talvez não.
Com essa meta em mente, suas viagens sempre eram jornadas singulares, atravessando pontos não exatamente turísticos.
Vilas à margem de florestas mais velhas que as palavras que as nomeavam. Pequenas cidades cerceando lagos que perdem em profundidade apenas para seus próprios segredos.
E vilarejos isolados nas montanhas.
Tudo teria acontecido em uma pequena casa, antes apenas longe do vilarejo. Agora isolada tanto pela natureza quanto pelas intenções dos moradores.
O pequeno caminho que levava até ela estava coberta pela vegetação da montanha. Mas ainda era discernível.
Olhando para a casa, parecia não estar abandonada há tanto tempo.
Montando sua imagem sem o musgo pelas paredes, a árvore que parecia ter decidido que parte da parede e telhado estavam no melhor caminho para seus galhos e os telhados que haviam caído, a casa parecia bonita.
Pequena e rústica, mas bonita. Não deveria possuir mais de vinte metros quadrados, com grandes janelas, possíveis apenas para casas de tempos antigos em lugares remotos. A entrada da casa, que ele encarava no momento, recebia todo o sol nascente.
O viajante era corajoso, mas não havia motivo pra visitar um lugar com uma fama tão ruim à noite.
Aproximando-se da entrada, a absurda sensação de estar sendo observado fez sua nuca coçar.
“Um clássico de filmes de terror”, pensou.
Se apoiou no batente de madeira escura, sem porta alguma, e olhou para dentro. Parecia ser a cozinha da casa, que não chegava a ocupar nem metade da mesma. Era bem pequena, com um fogão à lenha no lado direito, uma mesa aparentemente muito pesada encostada na parede, ao lado do fogão.
Estranhou o fato de não ter uma pia, mas não se preocupou muito com isso. Estava mais preocupado com o que estava vendo no fundo da cozinha.
Obviamente, esse interesse pelo oculto não era compartilhado por nenhum de seus amigos, colegas, conhecidos, familiares ou clientes.
Não que ele tenha entrado nesse assunto com algum cliente.
Mas nenhum deles teria se interessado por um assunto maluco desses. Ele mesmo achava muito estranho todo esse interesse, mas ele continuava pesquisando e viajando.
Já tinha aceitado que, por ora, era uma jornada solitária.
Como ele buscava sempre referências, ditas “reais” sobre o oculto, passou a gostar também de assistir os filmes de terror, apenas para comparar as bizarrices destes com o que conhecia. Se admirava com a criatividade dos diretores de nunca largar um tema, por mais batido que pudesse ser.
E com esse hábito, passou a perceber alguns padrões. Como a garota sozinha no escuro pedindo para o engraçadinho do grupo parar de brincadeira (normalmente seguido de um decapitação), ou alguém que sofreu alguma coisa na mão de uma aparição e é acusado de autoflagelação (comumente seguido da morte do acusador).
E, claro, o já clássico corredor escuro.
Com um vulto no final.
Ali, naquele momento, ele sentiu o que só havia lido até então. A incapacidade de correr.
Só conseguia olhar para o vulto e ter a certeza que o vulto também olhava pra ele.
Queria correr. Queria perguntar quem era. Queria lembrar do que havia ouvido na noite anterior.
O dono do albergue lhe contou que há muitos muitos anos, antes mesmo do bisavô de sua avó ter nascido, naquela casa havia morado o responsável pela caça do vilarejo, na época com bem menos moradores.
Ele possuía uma filha. Apenas a filha. Sua esposa havia morrido pela peste, ainda um resquício do passado de sua terra natal.
Quando o caçador saía para cumprir suas obrigações, sua filha ficava em casa, cuidando para que a caça anterior estivesse pronta quando o dono do armazém viesse buscar. Cuidava também para que houvesse água fervendo para recomeçar o processo com o que seu pai trouxesse.
A casa era afastada do resto do vilarejo oficialmente apenas por causa do cheiro dos animais mortos; não-oficialmente ninguém gostava do caçador.
Um dia, voltando com dois coelhos no ombro, ele estranhou a ausência do já esperado barulho da água fervendo. Conseguia escutar a lenha crepitando no fogão, mas nada da água. Também não ouvia sua filha trabalhando na casa.
Pensou, com tristeza, que sua filha adolescente, já estava se interessando mais por outros adolescentes do que por seu ofício. Não conseguia se irritar, mas achava que ela, pelo menos, poderia ter terminado o que fazia.
Ainda pensava na infância dela quando entrou na casa e a viu no chão.
Em sua loucura, conseguia entender que ela tivesse sido estuprada e morta. Não conseguia absorver, contudo, que mente diabólica poderia ter tido o impulso de queimá-la com a água fervente.
Estava em um estado tal, que não conseguiu perder o controle. Sua mente gritava e se despedaçava, mas seu corpo se virou pra fora. Sua sanidade havia partido para o abismo, mas seus olhos procuravam. Seu cérebro reverteu a um estado primitivo, e seus instintos encontraram.
Quem quer que tenha estado ali, não vinha do vilarejo. Os monstros tinham vindo e voltado pela estrada que subia até lá.
Agora ele olhava com mais calma. Não exatamente mais calmo, mas havia respirado um pouco.
Olhando bem, não havia vulto algum. Tanto sua vista tinha acostumado um pouco mais com o interior da casa quanto o sol tinha ficado mais forte.
Olhou as horas no seu relógio. Ainda eram sete e vinte e sete. Ele tinha tempo de sobra para entrar e sair com luz.
Passou pela cozinha, onde supostamente o caçador tinha encontrado sua filha, torturada e violada. Esperava ver uma sombra impressa no chão, mas nada havia.
O corredor era curto e apertado. Ele ficava bem à esquerda da casa. No meio do caminho entre a cozinha e o resto da casa, existia um batente sem porta, que levava a um depósito de ferramentas, hoje vazio.
Estranhou também que na casa não havia banheiro, antes de se lembrar que ela era muito antiga.
Ainda pensava nisso quando sentiu não só que estava sendo observado, mas observado muito de perto.
Virou rápido pra trás, já sentindo o grito preso na garganta.
Não havia nada.
Lembrou novamente dos clichês dos filmes que assistiu, onde agora viraria de novo pra frente e se veria a dois centímetros de alguma aparição realmente medonha.
Ele sabia que era ridículo estar assustado com isso, mas por um momento não conseguiu virar de volta.
Respirou fundo e então se virou para o final do corredor, onde havia visto o vulto.
Continuava vazio.
Suspirando de alívio, continuou caminhando até lá. Pelo que esperava, haveria uma divisão entre uma sala e quartos.
Mas constatou que só havia um quarto. E, estranhou, no resto da casa sempre havia algum sinal de deterioração pela floresta.
Mas não ali. Até mesmo a janela continuava fechada, completamente inteira. E não haviam nem restos das possíveis camas que ali teriam existido.
Caminhou até a janela, pensando em abri-la, sem reparar onde pisava.
No meio da sala, ele começou a involuntariamente lembrar mais um pouco da história da casa, mas também parecia estar assistindo ela acontecer.
O caçador achou que não conseguiria encontrar os assassinos de sua filha. Na verdade, teve medo de não encontrá-los.
Então decidiu procurar outra forma de se vingar.
Algum tempo depois, os moradores do vilarejo começaram a perceber as pessoas desaparecidas. Queriam perguntar para o único que talvez conseguisse encontrá-las na floresta, mas ele havia perdido a filha ainda há pouco tempo.
E, claro, ninguém gostava dele.
Mais tempo passou e mais pessoas desapareceram. Resolveram procurar o caçador, então.
Aproximaram-se da casa, sentindo ainda os resquícios dos odores animais, mas não tão forte quanto normalmente eram. A casa estava escura, mesmo que ainda fosse o meio da tarde.
Chamaram à porta. Como não receberam resposta, entraram. Passaram pela cozinha, com seu chão limpo. Perceberam que o fogão não era usado já há algum tempo.
Seguiram pelo corredor. Viram as afiadas ferramentas do caçador. Tesouras nas paredes do pequeno depósito. Facas de diversos tamanhos penduradas.
Chegaram ao fim do corredor e então viram.
Formando um círculo no centro do quarto, cada um dos moradores reconheceu um ente querido. Mas eles estavam estranhos, como que sem uma mente para domar seus atos. Estavam apenas lá, sentados em círculo, virados para o centro.
E o mais estranho eram suas aparências. Suas peles pareciam ser madeira que havia pegado fogo e recentemente molhadas. Enegrecidas, não naturais, mas ainda de alguma forma orgânicas.
A escuridão imperava na sala, portanto foi difícil, em um primeiro momento, ver o que estava no centro do círculo. Lá estavam três homens, em pé, aparentemente normais, de costas um para o outro, muito assustados.
Quando um deles se aproximou da borda do círculo humano, finalmente os queimados esboçaram reação.
Todos eles se aproximaram dos homens, apertando o círculo. Ajoelhados, seguraram as pernas dos homens.
Oculto pela escuridão, ninguém o viu, até que do fundo do quarto, veio andando o caçador, de cabeça baixa. Chegou perto do círculo e segurou o lado da cabeça de um dos homens.
“Pudera eu ter o poder de fazer vocês sofrerem tanto quanto meu coração anseia”, ele disse. “Mas não caberá a mim essa função.”
Só então os moradores perceberam que os olhos do caçador estavam brilhando com um amarelo doentio.
Confuso se havia sido uma alucinação ou apenas uma lembrança muito vívida, o viajante sacudiu a cabeça.
Olhando ao redor, viu sombras nas paredes, como se houvessem pessoas reunidas em torno de uma fogueira no centro da sala.
Já tinha desistido de abrir a janela e estava se virando pra voltar quando sentiu novamente olhos sobre si.
Mas dessa vez estava muito mais forte. Ele conseguia sentir os observadores logo nas suas costas. Essa sensação crescia sobre seus ombros, como alguém com as mãos quase o tocando.
Quando deu um passo à frente, a sensação de quase toque sumiu. Mas voltou logo em seguida, já que ele não havia andado mais.
E dessa vez, as mãos pareciam crescer mais e mais sobre ele, como que se fechando em volta de seu pescoço. Completamente assustado, ele andou mais e andou mais rápido, na direção da saída da casa.
No corredor, pelo canto dos olhos, captou o brilho de metais no depósito, mas continuou correndo.
Passando correndo pela cozinha, pensou ter visto um corpo ensanguentado e fumegante no canto, mas ainda assim continuou correndo.
O caçador havia feito um pacto, disse o dono do albergue. Sua alma pelo sofrimento eterno dos assassinos. Mas uma alma era pouco pelo que ele pedia, havia dito a entidade. Ele precisaria de mais almas.
E, cego pelo desejo da vingança, ele buscou no vilarejo por sacrifícios. Inocentes encontraram a morte nos rituais que realizou dentro de sua casa. A entidade havia conseguido enganar completamente o caçador.
Ela chegou a ludibriar os assassinos a voltar à casa, mas era um preço pequeno pelas almas que havia conseguido. E essas almas agora estariam para sempre presas nestas formas, sempre buscando nos arredores por mais almas, procurando quitar sua dívida não existente com a entidade.
Elas também foram iludidas pela entidade, conseguindo cada vez mais almas e mais poder para si.
Guardavam um pouco de suas consciências, porém, pois nunca condenavam almas dos moradores de seu vilarejo.
O viajante correu, na esperança de conseguir chegar à luz do sol. O dono do albergue havia lhe dito, também, que os condenados evitavam ser tocados por qualquer fonte de luz.
Dessa forma ele ficou aliviado quando chegou ao lado de fora. Tão aliviado que, em um primeiro momento, não reparou.
Não percebeu que era noite.
Quando finalmente viu que era noite, correu. Correu muito.
Mas o dono do albergue vendeu as coisas dele pro próximo viajante que esteve lá.
Menos o relógio que ele costumava usar.
O relógio quem comprou fui eu.
Porque eu também sou um estranho. Strange, na verdade. Tom Strange. E eu sigo pelo mundo ainda mais obsessivamente que o viajante dessa história.
Com a diferença que eu busco resolver pendências como essas.
Com um pouco de sagacidade e pensamento rápido, consegui deixar aquele vilarejo em paz para novos viajantes, curiosos com sua história.
E eu trago este relógio para ter certeza de que não foi um sonho. Uma pena que eu não consigo desligar seu alarme.
Que sempre toca às sete e vinte e sete da noite.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Escuridão
Esse conto de hoje foi escrito após um dia e meio de bloqueio criativo. É uma sensação MUITO ruim estar com três (ha! três!) ideias pra conto, uma pra quadrinhos e não conseguir começar nenhum.
Então resolvi seguir o conselho dos mestres e, com uma única caixa dágua, matar três coelhos.
O conto a seguir foi uma experiência/rito de passagem/técnica de desbloqueio.
Experiência porque é um tema do qual eu nunca li nem vi nada similar.
Rito de passagem porque segundo H.P. Lovecraft e corroborado por Stephen King, é uma necessidade pra quem deseja trilhar o caminho do escritor (uuuhl, que bonito).
E técnica de desbloqueio também seguindo conselhos de Stephen King, eu simplesmente sentei e escrevi, sem pensar em nada antes.
Tô postando caso alguém se disponha a ler (ficou meio grande, desculpem), porque em tempos de twitter, mais de um parágrafo já é considerado gigante, então...
Bem, boa leitura!
-x-
Escuridão
Ele acordou e abriu os olhos.
Pelo menos ele achava que os tinha aberto. Tudo continuava tão escuro quanto antes de ele (talvez) abrir os olhos.
Tentou fechá-los e abri-los novamente. A escuridão continuava. Levantou seu braço para tocar nas pálpebras, mas seu braço bateu em alguma coisa sólida logo acima.
Ele tateou e parecia algo como uma caixa, logo acima dele.
Ele não lembrava de como tinha ido parar ali. Seria um mecânico debaixo de um carro?
Não, ele não era um mecânico. Era um músico. Estaria então embaixo de caixas de som? Como será que seu show terminou assim?
Ele forçou a memória. Estava tocando guitarra um pouco empolgado demais e então...
Não, ele queria ser um músico. Desde criança. Mas acabou se deixando levar pela vida. Tirava notas não tão altas. Nem se divertia tanto.
Bom, mas ele podia deixar para pensar sobre suas frustrações depois. Agora ele precisa sair debaixo dessa caixa. Tentou empurrar para cima. Ela não se moveu.
Em sua resolução de ano-novo, ele tinha jurado que iria entrar na academia. Não dessa vez.
Mas em que época do ano ele está?
Suas lembranças mais recentes são as palavras irritante e colorido.
Tinha uma banda irritante e colorida, não? Mas ele achava que não tinha relação com isso. Ainda ouvia as bandas da época de sua juventude e torcia o nariz pra qualquer novidade.
Mas bem, irritante e colorido.
Tinha certeza que teria magoado alguém se usasse essas palavras numa mesma sentença. Ou teria realmente magoado alguém?
De nada adiantava, ele não iria repensar suas frustrações agora.
Empurrou com mais força. A tampa nem se moveu.
Espera, “tampa”? Que tampa? Com o que ele estava associando essa situação?
Era só uma caixa que havia caído em cima dele, sabe-se lá junto com quantas outras e que, milagrosamente, não o havia esmagado. Só isso.
Tentou deslizar para baixo. A saída estava bloqueada por ali. Tudo bem. Pelos lados também. Assim como acima de sua cabeça.
Era realmente sortudo. Esse espaço em que ele estava parece ser o único realmente seguro.
O que é de estranhar. Ele não era especialmente sortudo.
Não foi assim que ele passou toda sua juventude esperando por um chamado para a aventura que nunca veio? Enquanto esperava, seus amigos, esses verdadeiramente sortudos, receberam seus chamados e viajaram, se apaixonaram, se divertiram e sumiram.
Mas não ele. Nada de bom para... para... como era seu nome mesmo?
Bem, ainda estava um pouco em choque. Dali a pouco seu nome viria à mente. Onde estava, antes de se interromper?
Ah, sim. Como nunca, nem mesmo durante a faculdade fez uma “loucura”. Não, ele era realmente centrado nos estudos.
Exceto que não era, não é? Nunca nem chegou perto de ser um dos primeiros da classe. Refez algumas matérias e uma vez, quase um período inteiro.
Mas isso é compreensível, afinal ele estava aproveitando sua juventude ao máximo. Não tinha como ter tempo para os estudos.
Exceto que ele não estava aproveitando nada. Para onde foi o tempo de sua juventude?
Ainda não é hora de ser melodramático.
É hora de empurrar com um pouco mais de força. E mesmo assim a tampa (ele deixou sua mente chamá-la assim dessa vez) não se movia.
Começou a tentar lembrar novamente do dia que se passou.
Irritante e colorido... Claro! O maldito mascote do maldito desenho que... que... bem, sua filha assistia! Ela tinha mesmo ficado magoada quando ele disse sua opinião sobre o desenho. Ele lembra de ter se estressado de forma extraordinária no escritório (não era mesmo músico, afinal) e, quando chegou em casa, perguntou onde ela via graça naquele dinossauro idiota.
Nossa, como os adultos conseguem tão facilmente esquecer de quando eram crianças?
De qualquer forma, sua esposa disse que seria uma boa ideia se ele trouxesse uma pelúcia para sua filha de aniversário.
Parecia uma boa ideia mesmo.
Era assim que ele havia levado adiante seu casamento durante tanto tempo, afinal. Sem diálogos. Parecia funcional.
A imagem de sua esposa entrou em sua mente. Também sem nome.
Ele realmente a amava. Haviam se conhecido... na faculdade? É, na faculdade. Oras, era pelo menos um pouco sortudo. Ela era realmente bonita.
O “era” do pensamento anterior o deprimiu um pouco. O tempo não era conhecido por ser piedoso quando só porque as pessoas pediam.
Eles passaram seus onze anos muito bem, sem grandes sobressaltos, nem pra baixo, nem pra cima. É um preço que se paga pela estabilidade ou coisa assim. Aqueles amigos de colégio nunca souberam o que é estabilidade. Sempre muito felizes para em seguida ficarem muito tristes.
Tantos clichês começam com corações partidos.
Mas ele sabia exatamente porque nunca havia sentido o coração se partir. Ele nunca havia se entregado totalmente a ninguém. E isso o deprimia mais do que as minúsculas marcas de expressão no rosto de sua esposa.
Dessa vez, ele relutou um pouco em afastar seus pensamentos. Pra onde havia seguido sua vida? O que ele podia compartilhar com o mundo, caso escrevesse um livro?
Repassando rapidamente, sua situação atual parecia ser a única digna de nota.
Pois bem, se fosse escrever um livro sobre esta situação, como faria? Começando pela sinopse:
…
Pra isso ele precisava, primeiro, descobrir o que era sua situação.
Fatos: estava em um lugar fechado, cercado seja lá pelo que for.
Este lugar era muito abafado.
Ele começava a formular uma teoria, mas era apenas influência dos contos que leu quando era mais jovem. Malditos Lovecraft e Stephen King.
Nesse sentido, também poderia amaldiçoar Spielberg, por nunca mais ter conseguido entrar no mar tranquilamente.
Ah, como ele odiava quando sua mente divagava sem rumo. Ou era uma tática pra tentar negar a hipótese que havia pensado? Ele nunca foi mesmo de divagar sobre nada.
Não conseguia mesmo. Quando lia uma história pra sua filha, não conseguia colocar sentimento algum, simplesmente lia, como um orador. Ou no discurso daquela presidenta eleita naquele país de terceiro mundo onde o Stallone ganhou um macaco.
Tudo bem, divagando de novo. Decidiu verbalizar mentalmente sua teoria.
Tinha sido enterrado vivo!
Pareceu até meio bobo falando em voz alta, apesar de ter apenas pensado.
Ele não podia ter sido enterrado vivo, para isso precisaria ter morrido, ou quase. Os médicos estudam muito mais e com muito mais afinco que ele para se formarem. Esse tipo de erro não acontece mais.
Poderia ter ficado mais tranquilo se não tivesse lembrado da enxurrada de erros médicos que figuraram nas manchetes de jornais nos últimos dias. Mas esses eram causados por auxiliares de enfermagem.
Oh, droga, e se o acidente tivesse sido tão feio que ele fosse atendido apenas por um auxiliar de enfermagem? Nem mesmo atendido, diagnosticado. Ou seja lá que termo é usado pra alguém que chega ao hospital apenas pra ser encaminhado pro seu velório.
Socou a tampa de seu caixão (já tinha aceitado esse fato) com força, esperando que ainda não tivesse sido enterrado.
Sete palmos de terra parecem o suficiente pra abafar os sons de um administrador fracote e frustrado pela vida. Parou de socar.
Por que ele voltaria, afinal? Quem sentiria sua falta?
Sua esposa? Sua filha? Sua não-amante-por-covardia-na-última-hora?
Teria sido realmente covardia? Apesar de não haverem picos de felicidade e satisfação no seu casamento, ele tinha afinal de contas recusado todos os convites para happy hour de seu trabalho (exceto o primeiro, tradição pra quem quer se enturmar) para voltar para o lado dela.
Ele tinha tido todos aqueles sonhos não concretizados, mas no fim de sua estável jornada, estava ao lado dela. Poderia dizer que havia valido a pena?
Achava que sim. Não, tinha certeza que sim. Sua esposa era realmente sua fonte de maior felicidade. Por que ele se enganava, falando que nunca se entregou totalmente?
Ele lembrava de quando a havia pedido em namoro. De como tremia quando tentou convencer a jovem aspirante a jornalista a sair da casa de seus pais e se aventurar com o recém-formado administrador. Lembrou com clareza de como sorria largamente quando a via usando o anel que havia comprado.
Sim, havia amado e sido amado com intensidade. Ele voltaria pra ela.
Sua filha gostava de desenhar. Na maioria das vezes aquele dinossauro idiota, que ele nem achava tão idiota assim. Só estava realmente estressado naquele dia.
Lembrou com perfeição quando sentiu seus chutes, ainda na barriga de sua esposa. De como seu choro parecia infinito nas noites de seus primeiros meses. De seus primeiros passos, de quando falou pela primeira vez (“Mamãpapá”, apesar do que diziam seus amigos, ele acreditava que ela não pedia comida, mas sim havia chamado os dois), do seu primeiro dia na creche e agora, há pouquíssimo tempo, de quando entrou no ônibus para a escola.
Ela tinha crescido tão rápido.
E ontem era seu aniversário. Foi. Ontem foi seu aniversário. E ele havia comprado sim, o dinossauro não tão idiota. E ela realmente havia ficado muito feliz.
O que o pouparia de pedir desculpas. Mas ele o fez assim mesmo. Acabou lembrando dos desenhos imbecis (estes sim) de sua própria infância. E como também não gostava quando eram criticados.
Ela gostou tanto que saiu correndo para a casa dos vizinhos, com um filho quase na idade dela. Parece uma daquelas histórias de comédias românticas americanas, onde os protagonistas se conhecem e são melhores amigos desde a infância.
Normalmente são vizinhos de lado. No seu caso, eles moravam na casa em frente.
Ah, as crianças, nunca ouvem os pais. Eles sempre diziam que ela devia escovar os dentes. Mas ela só passou a escovar todos os dias quando o bendito dinossauro assim o disse.
Pensou que antes disso, ele devia ensiná-la a olhar pros dois lados antes de atravessar.
Ele sempre achou clichê, mas realmente tudo acontece num borrão, de onde é difícil extrair as imagens com clareza.
Lembrava basicamente dos sons. Do grito de sua esposa. Seguido do grito de sua filha. Dos pneus cantando.
Antes da audição deixar o tato ter seu momento, ela o presenteou com o som de sua filha, empurrada por ele, caindo na grama do outro lado.
Ele pensou que talvez ela tenha ralado o joelho, enquanto rolava por cima do capô. Pensou que ela iria chorar um pouco agora e mais um pouco depois quando sua esposa passasse o remédio. Isso enquanto caía no asfalto, atrás do carro.
Mas ela não iria chorar muito. Não sua menina. Havia puxado a força do olhar de sua mãe. Os olhos dela, o nariz dele, era o que sempre diziam.
E com os olhos de sua esposa em sua mente, a escuridão chegou.
E agora estava ali, pensando que sua vida valeu muito a pena. Amava muito sua esposa e sua filha. Demais. Mas a teria conhecido de qualquer forma. Poderia ter aproveitado bem mais seu tempo.
Queria poder dizer isso à sua filha. Depois de tudo, de tanta racionalidade, havia começado a acreditar em almas gêmeas.
Queria dizer isso à sua esposa também.
Nem se importava tanto com sua situação atual. Não importava se alguém havia cometido um erro e agora ele estava ali, incapaz de dizer o que sentia às pessoas mais importantes de sua vida.
Ele pensou mais uma vez nos olhos de sua esposa e fechou os seus. Que talvez nem estivessem abertos, pra começar.
E agora ele via luz, apesar de ter certeza que seus olhos estavam fechados.
– E isso é tudo?
– Sim. Foi aí que acordei.
– Entendo...
– Me diga... você acredita em mim, senhor?
– Claro que acredito, mas você sabe que não há como provar, não é?
– Sim... E-eu só queria que alguém soubesse que... que...
– Não se preocupe, senhora, algumas pessoas saberão e algumas acreditarão. É isso que desejava?
– Sim, acho que seria isso que ele desejaria também... Sinto que era.
– Pois bem. Acho que vou andando, agora.
– Não quer mais um pouco de suco, senhor? Está tão abafado hoje...
– Não, obrigado mesmo, senhora. Mas eu preciso ir. E sinto muito pela sua perda.
– Ahn, obrigada. Mas... Desculpe, mas acho que não sou mais “senhora”.
– E eu ainda sou jovem demais para ser “senhor”, moça. Temos um acordo?
– Hehe, claro, me perdoe. Como devo chamá-lo?
– Pode me chamar de Tom. Tom Strange.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O Selo - Capítulo 3
Alexander entra em combate com uma criatura poderosa. Talvez poderosa demais para suas habilidades. Mas alguns de seus espólios mostram-se bastante úteis.
Égide
Edward Khalembar estava em seus últimos momentos de vida, e o corpo de Serena, sua amada esposa, jazia caído aos seus pés. Morta. Desespero.
-Admito que você foi bem, guerreiro. Você e sua mulher deram bastante trabalho e, por causa da arrogância e fraqueza, seis caíram. Mas que isso fique bem claro, sua jornada termina aqui.
Edward sangrava por todas as frestas de sua armadura pesada. Seu escudo estava partido, inútil. Seu elmo rachado, fazia que a luz tocasse seu rosto. Sua espada, quebrada, quarenta centímetros de lâmina lhe sobrando. Talvez a Academia não o tivesse preparado para isso.
-Mas saiba, guerreiro - Disse o dono daquela pomposa voz, enquanto caminhava e sacava, com um gesto quase supérfluo, um sabre - seu nome é digno de fazer parte da minha história. Você será aquele que eu derrotei para atingir o poder. Sua esposa e você serão aqueles que tombaram em combate diante do ser mais poderoso do mundo. Deviam se orgulhar.
Orgulho.
Edward lembrou-se de seus dias na academia, de todo o treinamento, das conquistas, dos sacrifícios, da alegrias, das tristezas, das glórias e honras. Orgulho. Seu filho. Orgulho. Serena. Orgulho.
E que queimem a língua aqueles que duvidam da existência dos milagres, pois Edward Khalembar, naquela colina sob a chuva, performou um.
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O urro da criatura reverberou e fez o chão tremer sob a sola das botas de Alexander Khalembar. O guerreiro sentiu uma gota de suor gelado escorrer por sua nuca, descendo por suas costas e se perdendo entre inúmeras outras, geradas pelo peso e pelo calor da armadura. Adiantou-se um passo, cauteloso, o escudo frente ao corpo, a espada apoiada sobre o escudo, pronto para estocar.
A criatura investiu, com uma velocidade quase impossível de ser acompanhada. Suas garras tirando o primeiro sangue do combate, rasgando o ombro esquerdo do guerreiro. Khalembar tentou uma rápida resposta, brandindo a espada, mas cortou apenas o ar.
O gigante postou-se, curvado e grotesco, novamente à distância e, com um ar de satisfeita maldade, pôs-se a lamber o sangue em suas garras. Nojo. A criatura pareceu se deliciar com a prévia de seu banquete, e Alex soube que, se fosse derrotado, seria devorado.
Alex investiu, buscando estocar sua espada no ventre do gigante, mas não conseguiu perfurá-lo. Seu couro parecia ser tão resistente quanto uma grossa placa peitoral. Foi colhido em um golpe circular da criatura, sendo atingido no peito e arremessado talvez três metros para trás. Evitou a queda, mas não conseguiu manter o ar em seus pulmões. O gigante avançou, mirando sua cabeça como alvo.
Foi aí que aconteceu algo que Alex não esperava.
Respirou fundo. Duas vezes. O golpe ainda no ar, como que muito mais lento, como um ensaio de golpe. Alex enxergava o golpe como uma mímica, em lentidão. Levantou o escudo, tendo que esperar ainda mais dois ou três segundos para sentir o impacto. Um impacto bruto e forte, que quase o pregou no solo. E, como que num instante, o combate voltou à sua velocidade habitual. Alex não entendeu e não se preocupou com isso. Teria tempo depois, se sobrevivesse.
Aproveitou-se da curta distância entre os dois e estocou com a espada, seguindo um golpe com a borda do escudo. Novamente, Alex ficou surpreso com o resultado.
Sua estocada novamente foi repelida pelo couro do gigante. Mas seu golpe com o escudo, por outro lado, além de abrir uma ferida na criatura, arremessou-a para trás, como se a força de seu golpe tivesse sido tão grande quanto a força da própria criatura. Alexander, surpreso, mas pensando rápido, investiu novamente para a criatura, dessa vez golpeando com o escudo. Um, dois, três golpes com o escudo. A criatura urrava, sangrava e rodava, atordoada. Talvez sem entender como aquele pequeno cavaleiro comseguia tanta força.
O gigante caiu de joelhos, arfante, a bocarra aberta. Alexander aproveitou o momento e estocou com a espada, para cima, mirando o céu da boca do oponente. A lâmina trespassou pele e osso, indo se alojar em uma consistência esponjosa e gelatinosa. Um muco cinzento escorreu pela lâmina até a guarda. E o gigante tombou, morto.
Alex olhou para seu escudo, espantado. Tirou o elmo para poder respirar melhor. Olhou em volta, e fixou seu olhar em Michelle. Tinha vencido a batalha, e agora queria respostas.
Continua...
(Mas não neste blog!)
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O Selo - Interlúdio 1
Alexander Khalembar parte em direção à criatura agigantada, cheia de ódio, preparando-se para um embate. Michelle observa aflita enquanto o cavaleiro segue com um sorriso. A criatura olha com fúria e avança com uma idéia fixa na mente. Matar.
E, enquanto isso, um deus observa um ladrão.
Era final de tarde, e, enquanto o deus observava, o ladrão corria. Não que houvesse roubado algo, e não que o deus não tivesse algo melhor a fazer. O elfo era apenas um dentre muitos aventureiros escusos e furtivos, com habilidade para desarmar armadilhas. Um ladino. O deus observava com interesse a fuga.
Porque do sucesso desta dependeriam talvez milhares de vidas.
O ladrão tentava atravessar uma floresta fazia horas. Antes disso havia corrido por uma planície. Antes disso esgueirara-se por entre as pedras de uma escarpa. E antes disso saltara uma alta muralha de cidade. Fugia com o diabo em seus calcanhares, pois ele era perseguido, e seu perseguidor parecia não se cansar.
O elfo tinha as solas dos sapatos se esfacelando, os joelhos doloridos, a boca seca. As mãos doíam e as pontas dos dedos estavam vertendo sangue pelo esforço ao atravessar o muro e a escarpa. A cada momento forçava-se a se agarrar à consciência, sabendo da importância da mensagem que precisava entregar.
E, atrás dele, os cascos. Sempre os cascos.
A cada vez que o elfo acreditou, por um instante, ter deixado seu perseguidor para trás, ouvia os cascos, o trote, o cavalgar. Sentia metade medo e metade desespero, e se punha a correr de novo. E, naquele exato momento, odiou a Floresta Alta.
Para se manter vigil, forçou-se a lembrar o porque de sua fuga. Estava no reino de Korhal, era noite, caminhava por uma ruela. Um contrato, dinheiro fácil. Espionar um nobre professor, um cavaleiro do reino, e depois relatar tudo para o contratante. Não precisaria combater, nenhuma armadilha para desarmar. Sem riscos.
Dinheiro fácil.
As coisas então começaram a ficar estranhas. O cavaleiro adentrou o Templo das Damas do Selo. Ele ouviu gritos, gemidos, barulho de espadas. Adentrou também o templo. Viu que o cavaleiro sangrava. Dúzias de outros cavaleiros estavam também feridos ou mortos. No centro, sete figuras distintas. Apressou-se em fugir dali, precisava avisar alguém. Sentiu algo curioso, uma sensação estranha, como se sua mente tivesse sido violada.
E uma das figuras partiu em seu encalço.
Fugia fazia quase um dia completo, sem comida, sem água, sem descanso. Precisava chegar ao reino vizinho e pedir ajuda. Korhal tinha problemas, e no reino vizinho poderia ter segurança de novo, e seu reino receberia ajuda. Poderia dormir.
Chegou em uma clareira cortada por um riacho. Parou. Por impulso ajoelhou-se à margem para beber. O sol já se escondia no horizonte, a floresta engolfada em uma penumbra suave. O líquido gelado desceu-lhe pela garganta depois de molhar-lhe os lábios. A doce delícia de um gole de água quando em uma sede atroz. Cascos.
Ergueu-se assustado, olhando para todos os lados, tentando descobrir para que lado deveria fugir. Ouviu uma voz, irritada, quase um sussurro:
- Você é esperto elfo – cascos –, esperto demais pro meu gosto. Me deixa irritado.
Cascos.
O elfo viu seu perseguidor adentrar a clareira, uma longa espada na mão direita, uma longa lança na mão esquerda. Corpo coberto por metal. Cascos.
O perseguidor irrompeu em uma carga de cavalaria, a lança apontada para o peito do elfo. O ladrão tentou se esquivar, mas foi lento, vencido pelo cansaço e pela perícia de seu algoz. Costelas foram destroçadas, um pulmão perfurado. Foi ao chão, gemendo, com dificuldade para sorver o ar, que parecia lhe faltar no peito.
- Foi uma boa caçada elfo – cascos –, mas me deixou irritado. Tudo me deixa irritado.
A lâmina da espada cortou a garganta do elfo, e a lança estocou mais uma, duas, três vezes. Espada e lança castigaram o corpo sem vida do ladrão. Golpes dados a esmo, guiados por irritação, fúria, ódio. Ira.
O perseguidor olhou por sobre o ombro. Seria uma longa cavalgada para encontrar seus camaradas.
Cascos.
Em algum lugar, o deus suspirou.
Continua...
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O Selo - capítulo 2
Alexander descobre que o Selo foi mais uma vez quebrado. Na última vez que isso ocorreu, seus pais foram mortos.
Mas... qual a origem desse Selo?
*************************************************** Origem *******************************************************
O reino de Korhal sempre foi conhecido por dois grandes expoentes: Os Filhos de Korhal, a guarda de elite, os melhores cavaleiros de todo o continente de Sépala, e pelas Damas do Selo, as representantes da mais antiga tradição entre os reinos humanos. É notório que, muitos anos atrás, antes mesmo da fundação de Korhal, uma lenda já era contada. Essa lenda fala de um velho senhor que sentou-se frente à uma caverna, e por sete vezes setenta dias ele ali rezou, pedindo água, abrigo, prosperidade, felicidade, riquezas e sorte. No último dia de oração, o próprio deus Balasar desceu à terra e com o velho falou.
- Por que se posta aqui, velho homem, em seus claros últimos dias de vida, e a mim ora por todas essas coisas? Se tivesses buscado água, construído abrigo, plantado para colher, aproveitado as oportunidades que a vida lhe deu, você já teria quase todas as coisas que me pede. Por que, homem, ficas então aqui a rezar?
E o velho, mal conseguindo olhar nos olhos do deus, tamanha sua imponência, respondeu, humilde:
- Meu senhor, grande senhor... sim, o que o senhor diz é verdade... mas muito pouco pode um homem solitário fazer por alguém que não a si mesmo... em minha vida eu busquei água e a bebi. Construí casas para mim, para meus filhos e netos. Plantei em lavouras e colhi meu sustento, e colhi o suficiente para prosperar e ter lucro. Tive família, filhos e fui feliz. E posso lhe dizer, meu senhor, que tive sim sorte em minha longa jornada.
- Mas, se teve tudo, o que me pede?
- Peço ao senhor que o senhor conceda as dádivas que eu tive à toda a humanidade... porque minha vida foi muito curta, senhor, para fazer tudo por todos... então eu não me importo de passar aqui meus últimos dias, suplicando para que o senhor me ouça e conceda essa graça a todos os outros...
O deus se comoveu. Era, de fato, o primeiro homem que lhe pedia algo tão altruísta. Ele então usou de seu poder e atendeu aos pedidos do homem.
O Selo havia então sido criado.
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Khalembar cavalgou como podia.
Rhano estava cansado, por isso iam devagar, e Michelle, montando uma égua castanha, Calintz, acompanhava seu trotar. As dores tinham voltado ao corpo do jovem cavaleiro, bem como o sentimento de urgência. O Selo fora quebrado, e algo precisava ser feito.
Alexander temia.
- Alex... – disse Michelle, a preocupação estampada em sua voz – você não está pensando em... – hesitou.
- Alguém tem que fazer alguma coisa... alguém precisa resolver o problema... só de pensar... outros passando pelo que eu passei... Michelle, eu tive sorte... conheci você e Urich e Salazar, e sou eternamente grato a isso. Vocês são minha família. Mas se algo acontecer... se outros como eu... entenda, eu preciso fazer algo!
A mulher hesitou, e deliberadamente desviou o olhar do jovem. E Khalembar estava tão concentrado em chegar aos muros que sequer percebeu. As horas passavam arrastadas para o jovem. Seu cavalo dava seu máximo, ele sabia. Mas a cidade estava demasiado longe e os passos eram demasiado curtos. O tempo urgia, e cada segundo desperdiçado era um grande passo para um futuro obscuro. Da última vez que algo parecido ocorrera, dezessete anos atrás, tudo foi salvo por um grande herói e uma grande heroína.
Edward e Serena Khalembar.
Alex sabia que seus pais tinham se conhecido na Academia, no mesmo lugar onde ele próprio conhecera o Velho Salazar, mestre de esgrima e estratégia, Urich, seu melhor amigo, sempre sorridente, com quem disputou vários duelos durante o treinamento. E foi ali que conhecera Michelle. A imagem de seu primeiro beijo perpassou sua mente, quando a voz da própria o puxou de seu devaneio:
- Olhe Alex! Sobre a Colina!
Alex olhou e viu, numa colina próxima, um vulto grande, de capuz e capa longa. Parecia observá-los. Desmontou de Rhano. Não sabia exatamente por que, mas em sua cabeça fazia sentido. Michelle apeou igualmente e caminhou ao seu lado. Juntos foram até o pé da colina.
- Daqui não passarão cavaleiros, – disse o vulto, com voz grave e solene – essa batalha não é para vós.
Alex mirou o vulto de alto a baixo. Parecia ter algo em torno de um metro e oitenta, e a capa e capuz o impediam de avaliar melhor, se estaria armado. Semi-cerrou os olhos tentando melhor divisar, mas não adiantou muita coisa. Retrucou.
- Preciso voltar ao meu reino, a jornada foi longa, e não é por causa de um desconhecido que me deterei aqui.
- A sua consorte sabe que na cidade lhe esperam notícias negras como a noite mais escura. Ouça o que eu digo jovem. Dê as costas a essa cidade, e não retorne.
Alex olhou para Michelle espantado. A jovem parecia confusa. Respirou fundo, desconfortável. Olhou para cima novamente.
- O que tiver de descobrir, descobrirei em meu destino. Não retrocederei.
O vulto ficou silencioso durante alguns longos segundos. Em seguida, virou-se de costas para o jovem e suspirou.
- Não diga que não lhe avisei.
E enquanto o vulto desaparecia atrás da colina, uma criatura enorme, beirando os quatro metros de altura começou a aparecer por trás da mesma. Era humanóide, musculoso, com uma pele cinzenta e de aspecto bruto. Tinha garras e chifres e dentes pontiagudos.
E exalava um olhar de puro ódio.
Michelle ficou em guarda, mas Alex se postou em sua frente. Envergou o elmo e aprumou o escudo.
- Afasta-te Michelle. Esse combate é meu. Estou confuso e anseio por respostas, então me prometa. Se eu vencer, não me esconda mais nada.
E avançou para a batalha com um sorriso no rosto.
Continua...
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
O Selo - Capítulo 1
Um reino é assolado por um mal, e um jovem cavaleiro parte para enfrentar o perigo. Sua jornada de volta será tão perigosa quanto a de ida? E que mudanças terão acontecido em seu amado reino durante sua ausência?
***************************************** Voltando pra Casa *********************************************
Há anos o reino de Korhal sofria.
Tinha sido um reino próspero em sua fundação e mais ainda quando uma imensa torre surgira no horizonte. A torre era a morada de um velho mago, muito poderoso, e ele iniciou um processo de trocas comerciais com o reino, fazendo ambos prosperarem. Foi assim por décadas e décadas.
Até que o rei percebeu que tinha confiado na pessoa errada.
Começou com desaparecimentos na Floresta Alta. Lenhadores começaram a não retornar para seus lares. Suas esposas recorreram ao rei, e os Filhos de Korhal, a guarda de elite, se prontificou a descobrir o que se passara.
Dez partiram. Espadas e escudos, armaduras e cavalos. Três voltaram com a notícia fúnebre. A mata estava agora infestada por criaturas mortas-vivas e bestas invocadas por magia. O mago que vivia na torre era um necromante.
Assim se iniciou o sítio aos muros de Korhal. Noite após noite os muros eram atacados. Cada cidadão era um soldado defendendo a cidade, e a guarda de elite se postava também nos muros, todos lutando como iguais, pelo mesmo ideal. Mas mesmo que as criaturas nunca tenham conseguido penetrar as defesas da cidade, haviam baixas. Soldados, aldeões e guardas davam suas vidas pela segurança de todos. E cada soldado morto era uma criatura a mais na armada invasora.
E matar aqueles que foram um dia seus amigos, amantes, colegas, mães, pais, irmãos, estava destruindo a alma do povo.
O desespero tomara as ruas, e o rei, em seu palácio, olhava para sua linda filha e temia que algo de ruim acontecesse com ela. Pois, apesar de rei, era também ele um preocupado e atencioso pai. E aquele homem imponente, em cada uma de suas noites mal dormidas, rezava pra que os deuses lhe mandasse um aviso, uma solução.
Foi por isso que, quando um jovem cavaleiro se apresentou no salão real e clamou para si a missão de viajar até a torre do mago, sozinho, e derrotá-lo, o rei deu graças aos céus e o enviou, trajando cota de malha e elmo, armado com espada e escudo, na companhia apenas de um cavalo branco.
Se o rei tivesse pensado mais, se não fosse ele mesmo, em segredo, também um cidadão tomado pelo desespero, se não fosse ele também um temeroso pai, talvez tivesse reunido uma guarda maior, com seus melhores soldados para ajudar o jovem cavaleiro. Assim, quem sabe, a missão teria uma chance maior de sucesso.
Mas o rei em nada disso pensou, e o jovem partiu.
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Deixara seu lar há três ou quatro semanas, não sabia ao certo. Cavalgava lento, se apoiando em Rhano, agarrando-se à consciência. Sua pele era morena, e seus cabelos curtos e negros. Sua cota de malha estava rasgada em vários pontos, os anéis metálicos imprestáveis. Usava uma libré branca por cima da cota, com o símbolo de seu reino às costas. O escudo e o elmo tinham se quebrado na torre, e o jovem tinha cortes pelo corpo, que doíam a cada trotar do cavalo. Sua espada pendia ao lado de seu corpo, ainda segura por um punho que, a despeito da enorme provação pela qual passara, mantinha-se firme.
Conseguia ver a cidade à sua frente, e calculou, por um momento, que cavalgaria ainda mais seis ou sete horas. Iria rever seu povo e lhes contar as boas novas. Lograra sucesso em sua missão. Fora difícil, e por vezes ele pensou que não conseguiria, mas um desejo em seu coração queimava, e, graças ao desejo, ele estava retornando. Sabia que teria pesadelos por semanas. As criaturas grotescas e crueldades que viu na torre ficariam gravados em sua mente, talvez pelo resto de sua vida. No alto da torre uma câmara, onde algo que um dia fora um homem estava sentado em um trono.
Alto, majestoso, frio, cruel. Um necromante.
Nada antes em sua vida lhe assustara mais que aquele encontro. O jovem usou todas suas forças na batalha e, ainda não sabia ao certo como, saíra vitorioso.
De todos os saques possíveis na torre do mago, o jovem cavaleiro tomou para si apenas duas coisas. Um escudo, para substituir o próprio, despedaçado em um embate contra uma quimera, e um elmo, pois o seu fora quebrado pelo próprio necromante. Seu rosto carregava também cortes onde os feitiços haviam lhe atingido. Não fosse seu elmo, teria sido decaptado.
Sabia que a torre deveria esconder muito mais riquezas, mas seu espírito estava cansado demais para ser ganancioso. Que o povo e os outros soldados se refestelassem em saques, seu trabalho já estava feito.
Não tinha derrotado todas as criaturas da torre, tendo escapado delas diversas vezes durante sua jornada. E agora voltava para casa, em fuga. Monstros cheios de ódio e vingança por seu mestre morto desejavam, obsessivamente, trazer morte àquele cavaleiro que ousara enfrentá-los. Rhano cavalgou como o vento, é verdade, e o jovem agradeceu aos deuses por cada trotar, cada corrida, cada passo a mais. Não lhe restavam forças para outro embate, ele pensava. Precisava chegar em casa. Precisava descansar.
Precisava vê-la.
Vendo a cidade à distância, o cavaleiro forçou a si mesmo e ao cavalo a seguirem adiante. Mais algumas horas, pensou. Mais algumas horas e estarei seguro. Mas a vida parece pregar peças com todos, e não foi diferente com aquele rapaz. Pois o reino de Korhal não sofreu apenas com as crias do mago, nesses últimos anos. As estradas há muito não eram patrulhadas. Todo o contingente de soldados do reino estava nas muralhas, de forma que diversas criaturas asquerosas e oportunistas atuavam nas estradas como salteadores.
E o jovem se viu presa de dois deles.
Goblinóides bárbaros. Criaturas repugnantes, dotadas de força muito maior que a de um ser humano, um faro potente e sede de sangue. O jovem acelerou o trote do cavalo, mas a passagem na qual se encontrava favorecia seus perseguidores, que correram pelas colinas abaixo, saltando sobre o cavaleiro.
- Não vão me matar sem luta! - bradou - Não sobrevivi à torre de um necromante para ser abatido por vocês!
Era uma boa bravata, e se ele estivesse descansado, sem ferimentos e com sua espada afiada, aqueles orcs seriam rechaçados com certa facilidade. Ele era, afinal, um cavaleiro treinado pelos melhores de Korhal.
Mas a situação não era ideal, e ele, à duras penas, aparou um golpe de machadinha com sua espada pesada, girou o cavalo em torno do próprio eixo, e atacou. Foi um corte certeiro no peito de seu perseguidor, que não mais viveria. No entanto, o giro o deixou de costas para o outro e isso lhe custou um corte de faca no flanco. Anéis da sua cota já avariada foram danificados, e ele sentiu seu sangue brotar.
Concentre-se, disse para si mesmo, tentando ignorar a dor.
Instigou Rhano para cima do selvagem, que foi obrigado a recuar para evitar o pesado cavalo de batalha. Esse recuro o fez se desequilibrar, e o jovem desferiu um golpe preciso em sua garganta, lavando o chão com o sangue negro.
Antes então que pudesse comemorar uma vitória, ouviu a canção da harpa da morte. Um arqueiro disparava flechas de cima do morro à sua esquerda, e o jovem ouviu o distinto tom que a corda do arco emite quando é solta depois de ser tensionada. Encolheu seu corpo na esperança de que as flechas não o atingissem, embora sequer as tivesse visto.
Aquele segundo pareceu uma eternidade, até que ele ouviu o barulho da seta atingindo o solo. Momentaneamente aliviado, ergueu seus olhos e divisou o alto do morro. Era estranho que um arqueiro bem posicionado errasse um alvo tão fácil quando um homem em um cavalo.- Você está atrasado Khalembar, - disse uma voz doce e severa sobre o morro - e você bem sabe que eu odeio os seus atrasos.
E, pela primeira vez em dias, Khalembar sorriu. E, de repente, grande parte de suas dores deixou seu corpo. Lá estava ela, com sua espada em punho, trajando sua armadura. Um fio de sangue escorria pela lâmina e, no chão, aos seus pés, um arqueiro morto.
Nossa, como sentira saudade. Ela continuava linda, e sorria, carinhosa.
- E essa é a sexta vez que você salva minha vida, Michelle. Eu devo ser mesmo um cara de sorte. - sorriu - Ande, vamos voltar para o reino. Preciso descansar e tenho boas novas a contar para o rei.
O semblante da jovem adquiriu um tom tenso.
- Que bom que tem boas notícias Alex... porque passamos por uma hora sombria. O Selo foi quebrado.
E que os deuses nos ajudem, pensou Alexander Khalembar, pois ele se lembrava bem das histórias sobre a última vez em que o Selo fora quebrado.
Ele se lembrava bem de quando perdera seus pais.
Continua...
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Dois Gumes
- Nossa... o senhor derrotou um dragão...
- Bem... em defesa dele, não era um dragão adulto... além do que, eu não estava muito... “dono de mim mesmo”
- Mas, mesmo assim... nossa... sua espada é muito forte...
- Sabe criança... o gume que protege pode ser também o gume que machuca...
Depois de vencer o dragão as coisas mudaram.
Os dias novamente eram arrastados, e parecia que enxergar aquilo que eu poderia ser tinha causado problemas ao amor que eu partilhava com Asami. Por um lado ela sentia medo daquele “eu impulsivo”. Por outro lado, eu me sentia estagnado, como se um negror corroesse meu espírito.
A Academia cada vez mais cobrava de nós alunos, e, ao passo que eu ficava cada vez mais sem me importar com as coisas, Asami ficava cada vez mais preocupada e nervosa. Brigamos diversas vezes por isso, e os sorrisos me faziam cada vez mais falta. Sempre quis que ela se divertisse mais com os estudos, mas, acho que por inexperiência, cada vez que eu lhe dizia para ter calma ela interpretava como uma bronca, ou uma repreensão.
E foi assim que me vi mais uma vez em um dos testes. Eu trajava uma armadura de batalha, pesada, que beliscava minha pele. Portava uma grande espada montante e um elmo que limitava bastante minha visão. Asami com seus trajes clericais e seu báculo. Meus outros companheiros armados e prontos para a batalha.
E, mais uma vez, foi um teste árduo. Companheiros caíram naquele dia, exaustos. Armaduras se partiram, machados empenaram, lanças se quebraram. O peitoral que eu vestia trincou-se por diversas vezes, a cada golpe que eu me postava na frente de Asami para defendê-la.
Minha espada já pesava muito em minhas mãos, e cada golpe que eu desferia era um esforço sem par para mim. Nossos adversários, Trolls das cavernas, criaturas de fúria e bestialidade, pareciam saber que eu me mantinha de pé apenas por vislumbrar meu amor, e a atacavam sem piedade.
E eu sofria cada golpe, porque eu não admitiria que nada mais a machucasse.
Nesse fim de tarde, quando todos estavam caídos, e apenas eu e Asami estávamos de pé, cercados por três remanescentes dos Trolls, eu ergui a espada mais uma vez. Um corte amplo, um golpe carregado muito mais de desespero do que de força e técnica.
Esse golpe jogou no chão os Trolls. Esse golpe os decapitou, nos tornando vencedores.
E esse golpe feriu Asami no peito.
Por todo o tempo seguinte, não me lembro bem do que ocorreu. Acho que a falta de visão que meu elmo causava foi uma das culpadas por aquele golpe. Tenho certeza que o desespero foi o ponto chave. Uma espada de dois gumes. Um protegeu, o outro feriu.
Tentei visitar Asami na ala hospitalar, mas uma das clérigas não deixou que eu me aproximasse dela. Tomado por vergonha e desespero, parti.
Vaguei por ruas escuras e becos estranhos. Vesti minha capa de viagem, coloquei alguns suprimentos na algibeira e deixei a cidade pra trás. A espada ficou. Não levaria comigo item maldito, instrumento com o qual profanei meu amor.
Era o fim de meu caminho, eu soube, e, por dias, pela estrada, vaguei.
Era um final de tarde, como aquele final de tarde que pesava no meu peito. Avistei uma caravana comercial. Estavam cercados por goblins, salteadores de estrada. Como aqueles com os quais me deparei ainda criança. Eram, todavia, muito mais goblins do que aqueles que nos haviam atacado, tantos anos atrás. Eram centenas, todos armados, e os guardas da caravana jaziam no solo, mortos.
E, sem pensar, sem espada, sem armadura ou escudo, eu os enfrentei. Havia ali pessoas a serem protegidas, e esse era meu dever. Me isolar e me afastar disso era negligenciar minha própria essência. Como tinha sido tolo. Como pude virar às costas para a única coisa que fazia sentido realmente.
Naquele fim de tarde eu lutei, com nada mais que meus punhos. E após minutos, ou horas, que pareceram dias, os goblins, apavorados e com seus espíritos quebrados, fugiram. Os sobreviventes da caravana saltaram de suas carroças, e, em uma delas, eu a vi.
Asami, com bandagens em torno de seu tronco, suas vestes clericais. Linda, como sempre. Ela me olhava entre um misto de dor, sofrimento, angústia, choro, saudade, sorriso e alegria.
Pensei em me aproximar, mas a mesma clériga que me impediu uma vez estava lá, me olhando com escárnio e reprovação, me impedindo mais uma vez de me aproximar dela.
Então o bardo tocou meu ombro e sorriu, e eu finalmente compreendi. Precisava crescer, precisava sair dali. E se Asami fosse meu amor verdadeiro, então, quando eu retornasse, ali estaria. E comigo iria ficar.
Sorri pra ela, virei as costas e caminhei até o porto, onde o bardo, através de seus conhecimentos, conseguiu para nós um navio e uma tripulação. “Passe alguns meses no mar, e ele lava sua alma” ele me disse.
E, assim, eu me levantei e deixei o vento guiar meu navio, sem certeza de em qual porto queria atracar... Afinal, criança, já fiz isso tudo, e muito mais coisas que não lhe contei, e, pra ti, pareço velho...
Mas a verdade é que tenho apenas 22 anos, e ainda tenho muito mais aventuras pela frente...
Hoje voltei de minha jornada pelo mar, e talvez um dia eu lhe conte minhas aventuras, pois sim, foram muitas. É impressionante a vastidão do mundo, e em cada esquina há uma nova jornada.
Mas se você esquecer tudo o que lhe contei, lembre apenas de uma coisa: O bardo sempre esteve certo. Quando estiver frente a frente com os maiores desafios de sua vida, sorria. Sim, sorria, porque isso tornará esses desafios bem menores.
Sabia das coisas, aquele bardo.
Fim (Por enquanto, rs)
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Bom, é isso aí pessoal! Chega ao fim minha primeira série de contos. Foi uma experiência nova e boa pra mim, afinal, nunca tinha conseguido dar seguimento a mais de um capítulo de texto, rsrs.
Agradeço aos que leram e comentaram. E sim, a história fica um tanto inacabada mesmo, mas minha inspiração-fonte pra esses contos também não chegou ao fim, de forma que daqui algum tempo, talvez esse velho de 22 anos volte a contar histórias para a criança que o ouve (e, muito provavelmente, quando ele voltar terá uns 23 ou 24 anos, rs).
Notei, desde que o blog começou, uma coisa muito importante: Evolução.
Nos comics, principalmente, pude ver o traço de meu amigo Rafero evoluir, pude ver as boas idéias de Mynnsen e Adele.
E reparei também que eu estagnei, tanto na escrita (onde sou pouquinha coisa) quanto nos desenhos (onde sou uma coisa um pouquinho melhor, rsrs). Estagnei e estava faz tempo sem treinar, sem me esforçar, sem aprender.
Por isso, a partir da semana que vem, os contos assumirão uma nova “cara”. Pois eu não quero abandonar a escrita, mas preciso voltar a desenhar.
Espero que tanto as novas histórias quanto as novas roupagens agradem a todos!
Vejo vocês no futuro. o/
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Romper Limites
- Sim criança... foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram em minha vida...
- Nossa! Foi nessa época que o senhor enfrentou grandes desafios, não foi?
Foram os dois melhores anos da minha vida.
Foram desafios sem conta. Uma bruxa que dominava mentes. Um clérigo maligno que drenava a água do corpo dos inimigos. Um curandeiro insano e megalomaníaco. Junto aos meus novos colegas de equipe e ao meu amor, todos esses desafios foram vencidos.
Nada fácil, verdade, mas em cada um desses, eu mantive um grande sorriso no rosto. Se eu estivesse ao lado dela, pra mim estava tudo bem. E cada ferida não importava, desde que eu visse aquele sorriso lindo ao final do dia. Usava de todas as minhas forças para fazê-la feliz e para defendê-la. E, confesso, me esforçava ao máximo, para estar à altura daquela menina.
Nesses anos eu também fiz bons amigos. Dentre eles, três se tornaram grandes companheiros. Sossamon e Dehon eram dois irmãos, tão parecidos quanto diferentes. Sossamon era mais diplomático, um tanto quanto reservado, mas sociável. Dehon era mais descolado, mais falante e galante, sendo sempre uma presença a nos alegrar. O terceiro desses bons companheiros era John, um rapaz bastante parecido comigo mesmo, só que com um pensamento objetivo diferente.
Novamente me vi cercado por amigos.
As semanas se encurtavam enquanto nossos exames se aproximavam. Nossa... quanta matéria tínhamos para revisar. As complicadas fórmulas de antídotos. As táticas e estratégias. Tudo aquilo povoava nossas vidas naqueles dias. Naqueles curtos dias, apesar de qualquer dificuldade, eu estava feliz. O bardo, meu amigo, sentava-se comigo durante as noites e ria alto, e conversava, e me dava dicas, conselhos, contava histórias. Grande cara, aquele bardo.
E, assim como era a cada período, as provas vieram bem antes de nos considerarmos totalmente prontos. Uma delas me amedrontava. Um cenário especial, apelidado de Kobayashi Maru. Um desafio tão difícil que diziam que era quase impossível. Mas lá estávamos nós em campo. Prontos à enfrentá-lo.
O combate era travado em uma grande arena circular, como um coliseu. Escombros pontuavam o local, podendo ser usados como cobertura. Espalhados em um canto, nós. Eu carregava uma espada de dois gumes, larga e afiada. Trajava uma cota de malha e elmo. Sossamon portava um machado e Dehon uma lança, ambos também cobertos por cotas de malha. John usava um peitoral metálico, um broquel, e um arco. Asami em seu belo manto e seu ornado cajado. Haviam mais duas pessoas nos ajudando.
No centro da arena, um dragão negro.
Seus olhos como ônix. Seu tamanho colossal. Suas asas negras, coriáceas e suas escamas brilhantes. Nossa, como era belo e ao mesmo tempo intimidador. Como era uma obra de arte da natureza, e ao mesmo tempo, tão letal. Senti medo, como nunca antes. Mas era um medo diferente, estranho, e eu não sabia exatamente por que.
Nos espalhamos para circundar o dragão. Usamos de tática, força bruta, magia. Tudo que tínhamos ao nosso dispor, e o dragão simplesmente não caía. Suas garras rasgavam nossa cota de malha e pele com extrema facilidade. Nossas armas pouco penetravam suas escamas rígidas. As magias de Asami pouco o afetavam, e as flechas de John se entortavam ao acertá-lo.
Minha espada estava chanfrada, e eu sangrava por dois ou três cortes. Sossamon correu até mim, apoiando Dehon. A lança empenada e o machado já ficara denteado. Asami me olhou, e pude ver em seus olhos que estava exausta pelo esforço contínuo. John estava com a aljava vazia.
Foi então que a criatura investiu contra nós como um vento muito forte. Fomos jogados no chão, e o dragão, como um deus da guerra, nos golpeou a todos. Garras, mordida, cauda. Sofremos uma chuva de ataques e estávamos prostrados. Tentei me levantar, mas meus braços e pernas não obedeciam. Não conseguia mais escutar nada, e mal enxergava. Estava tonto, e fiquei tentado a me entregar à inconsciência. Afinal, os responsáveis da Academia não deixariam que nós fôssemos mortos. Seríamos salvos pelos heróis experientes e seríamos apenas mais uma equipe que falhara ao Kobayashi Maru, que, de qualquer forma, era impossível mesmo.
Foi então que o dragão se ergueu e atacou Asami, caída.
O que lhe conto agora me foi contado quando acordei na ala hospitalar. Disseram que me levantei com fúria no olhar, segurando a espada chanfrada, e corri até Asami. O dragão soltou seu sopro de chamas, e meu corpo foi o escudo dela. Me disseram que eu corri então, enfrentando as chamas, até me aproximar da boca do dragão. E eu o ataquei, cravando a espada no céu de sua bocarra, atravessando osso e atingindo um ponto vital dentro de seu crânio.
Me disseram que o dragão tombou.
Quando acordei e olhei para o lado, vi Asami sentada em uma cadeira. Ela me olhava com carinho, e me disse que eu já estava desacordado faziam quatorze dias. Naquela tarde fui até as masmorras da Academia e vi o corpo do dragão. Realmente, havia ali a ferida que eu supostamente teria provocado. Mas eu não conseguia entender. Não era, de forma alguma, forte àquele ponto. Como?
O bardo então, como quem surge das sombras, estancou ao meu lado, dedilhando seu bandolim. Ele sorria, como sempre. Nossa, como ele sorria. Parecia tão feliz.
E, como quem lê meus pensamentos, ele cantou. Cantou grandes canções, e todas falavam da mesma coisa. A única coisa que havia me possibilitado um feito muito além de minhas capacidades. Um feito muito além de meus limites.
E eu finalmente entendi e sorri também. Realmente aquele bardo sabia das coisas.
Suas canções foram sobre amor.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Escuridão e Alvorecer
- Sabe criança... foi mais do que eu poderia imaginar, e menos do que eu esperava...
- Hein? Como assim?
- Uma vez me disseram que sempre é mais escuro antes do amanhecer... naqueles dias eu descobri a verdade nessas palavras...
Os dias na academia começaram de forma duvidosa, pelo menos pra mim. Esperava que os veteranos fossem pessoas de alto moral, de valores bem definidos e que já tivessem dado grandes passos na longa jornada até o heroísmo. Me enganara. Orgulho, vaidade e egocentrismo pareciam ser a regra daquele lugar. Pouco faziam para ajudar os outros, e tramavam brincadeiras ofensivas, que pareciam sempre poder acabar mal.
Em uma dessas, as quais eles chamavam “exercícios de iniciação”, nós calouros, ou S1, precisávamos atravessar um campo que terminava em um rio, e a única travessia em seco era uma ponte estreita. Os veteranos se agruparam na ponte, aguardando os calouros para algum divertimento humilhante. Logo que essa besteira começou, decidi que não passaria pela ponte. Junto com mais alguns calouros, caminhei por trás da ala hospitalar, chegando ao rio sem ser visto pelos veteranos. Para vadear o rio era necessário descer uma pequena ravina. Durante a descida uma menina por pouco não perdeu o equilíbrio, e eu segurei sua mão.
Curioso como a roda do destino funciona.
Vadeamos todos o rio, e não fomos perturbados pelos veteranos nesse dia. Nas semanas que se seguiram, éramos alvo de todos os tipos de travessuras sem sentido, e, aos poucos, fui aprendendo a detestar o lugar. Vários S1 já se reuniam em pequenos grupos, mas eu me relegava à solidão. E essa solidão ficou maior quando recebi uma carta de minha vila natal.
Meu tio adoecera.
Tinha várias falhas, mas era um ente querido. Não conseguia mais prestar muita atenção nas aulas, que a cada dia, para mim, se tornavam monótonas e sufocantes. Fugi. Fugi várias vezes retornando até minha vila natal para ver meu adoentado tio. Perdi diversas aulas nesse processo. Algumas vezes eu simplesmente ficava deitado na cama depois que o Sol nascia... ficava vendo as sombras mudarem de forma no quarto. E via o Sol se deitar. Odiava aquele lugar. Ficava me perguntando se era aquilo o sentido de tudo. Se aquilo era ser herói. Livros, teorias, exercícios sem sentido. Eu via as pessoas na rua que precisavam dos feitos que eu deveria estar aprendendo a realizar. Via os veteranos, que deviam ser um modelo, fazendo coisas idiotas com as habilidades que aprendiam. Via tudo isso e me decepcionava cada vez mais.
Sentia falta dos meus amigos. Não os via há tempos, e a solidão no meu coração parecia fazer cada vez mais apodrecer meu espírito. Treinava sem afinco e, em casa, meus livros empoeiravam. Mais uma vez fugi para ver meu tio. Se pudesse vê-lo, ao menos iria rir com suas piadas e histórias engraçadas. Ou talvez pudesse jogar algum dos jogos que ele gostava, e que passávamos, por vezes, algumas horas jogando. Faria minha semana melhor. Viajei durante pouco mais de duas horas até chegar em sua casa. E lá, como uma sombra que espreita, ou como o mensageiro que carrega notícias ruins, eu soube.
Meu tio falecera.
Saí dali e vaguei sem rumo. Caminhei por uma estrada escura e tortuosa. Sentia dor, muita dor. Meu coração pesava de tal forma que eu só queria sumir. Desaparecer. Os dias que se seguiram eram diferentes tons de cinza. Eu não conseguia rir com os outros. Não conseguia chorar. Não conseguia sentir. Era apenas escuro e vazio. Me consumia a cada dia, e pensei em abandonar tudo e ir para lugar nenhum.
Mas, como eu lhe disse, a roda do destino funciona de maneira curiosa.
Uma tarde, andando pelos níveis do subsolo da academia, indo para uma aula, eu vi luz. Conversamos um pouco. Apesar de tímida, ela me contava sobre as canções que gostava de ouvir, e eu reaprendi a sorrir. Ainda me aproximava dela devagar e, mais tarde ela me confessou, chegou a duvidar por vezes se eu me achava atraído por ela. Fomos escalados para preparar um trabalho e, na biblioteca, nossos olhares seguiam um ao outro. Lá toquei sua pele pela primeira vez e senti um fôlego quente encher o meu peito.
Os dias ali dentro se seguiram. E, a cada dia, aquela luz se fazia mais forte em minha vida. As coisas começavam a ter cor novamente. Eu sorria. Apresentamos o trabalho e não foi nada mal. Mas as provas se aproximavam e eu não me sentia nem um pouco preparado para elas. Comecei a me excluir novamente. O bardo, meu amigo, percebendo isso, sentou-se ao meu lado.
- Meu caro... o que há? Não achou então uma luz pra te guiar? Ou será que não é clara o suficiente?
Ele sorria enquanto falava comigo. Diabos, aquele cara sempre sorria.
- Sim... achei... você sabe que achei. Mas... tirando o fato de que não faço idéia de como vou dizer isso pra ela, ainda tem todas as provas, e eu vou me acabar nelas, e ela vai me achar um fracassado!
O bardo sorriu mais uma vez. E eu pensei em como havia se tornado difícil ficar com raiva dele. Ele me disse que para enfrentar os desafios eu precisaria de coragem. Muita. Porque aquele lugar não me ensinaria a ser um herói. Aquele lugar me ensinaria técnicas e habilidades. Usá-las como herói dependeria de mim. Bem... ele também me deu umas dicas de como eu poderia dizer o que importava pra quem importava. Sorri.
Nos dias seguintes eu lutei. Lutei com todas as minhas forças e, pro meu espanto, fui aprovado em todos os testes. Quase reprovado, é verdade, mas prometi a mim mesmo que não deixaria mais que aquilo acontecesse. Os S1, todos aprovados, se uniram para uma comemoração, um banquete. E, enquanto esperávamos o início da festividade, me aproximei dela. Tinha a pele branca como o alvorecer e eu não tinha visto mulher mais linda que ela em todos os meus pífios anos de vida. Asami era seu nome. E eu me aproximei e sussurrei em seu ouvido.
- Quanto tempo mais preciso esperar pra te beijar?
Naquele dia nos beijamos. Ela era a menina cuja mão eu tinha segurado para que ela não caísse. E, talvez ela nunca tenha notado, foi sua presença que me impediu de cair. Nossos caminhos até hoje não seguem mais separados, embora eu não saiba lhe dizer como a história termina.
Só sei lhe dizer que a amo. E, depois disso, se tornou muito mais fácil sorrir frente aos desafios.
(escrito ouvindo Iris – Goo Goo Dolls)
quinta-feira, 16 de julho de 2009
A Flor de Fogo e o Mar
- Quer dizer que o senhor foi reprovado? Como assim?
- Sim criança... eu não estava com o espírito preparado para aquela seleção, e, assim, fui derrotado.
- Mas... como o senhor foi aprovado então?
- Tudo começou com um naufrágio...
A praia tinha as areias mais brancas que já havia visto, e, ao leste, como que emergindo da areia, uma grande pedra, da largura de uns quatro homens, e da altura de uns dois. Sua base cheia de cracas e musgos. Eu estava sentado sobre essa pedra. Desde que a descobrira, duas semanas depois da seleção onde eu tinha sido reprovado, passava horas e mais horas contemplando o mar. Aprendi a amar o ir e vir das ondas, e fechava meus olhos, sentindo a brisa leve de maresia no rosto. Enquanto observava, meu coração viajava em pensamentos intrincados. Como eu deveria treinar, como deveria proceder.
Foi quando avistei o Fortuna.
Uma grande fragata era arrastada pelas águas além da barreira de corais. Seus mastros estavam quebrados e suas velas rotas. Seus cordames partidos, e o vento fazia o pano se agitar tal qual os cabelos de uma mulher. A nau se aproximou da barreira e os corais abriram buracos em seu casco. Me levantei. Pude ouvir uma sirene ser tocada à bordo, e um barco de madeira com uns seis tripulantes tocou a superfície da água. Os homens remavam com força e acreditei que se salvariam. Foi quando estremeci. Uma mulher de cabelos vermelhos estava se afogando, e os tripulantes a ignoraram. Remavam pra longe, e ela se agitava, sua cabeça submergia por segundos, e retornava a emergir.
Tirei minhas botas e comecei a nadar. Precisava ajudá-la de algum jeito. Eu não era muito bom nadador, mas momentos de desespero acabam resultando em medidas desesperadas. Consegui chegar até ela, guindando-a com um dos braços, e comecei a nadar de volta para a areia. Por duas vezes no trajeto engoli muita água e pensei que iria morrer. Feri minha perna direita nos corais, mas consegui chegar com a menina de cabelos ruivos até a areia. Vomitei. Olhei para o mar e vi o barco de madeira quebrando-se contra os corais. Nunca soube se aqueles seis homens se salvaram.
A menina estava bem. Abalada, mas bem. Ficou chocada com a quantidade de sangue que saía do corte em minha perna, e, para falar a verdade, isso também me preocupava. Usei minha camisa para estancar o sangramento, e a levei até a estalagem que meu amigo bardo tinha conseguido para nós. Era um quarto pequeno, onde já nos apertávamos meu amigo e eu. A menina tomou um banho e foi para o quarto. Após me banhar, entrei no quarto e a vi, sentada em minha cama. Chorava. Seus cabelos caíam por sobre seu rosto, e a camisa que eu lhe emprestara ficara grande como um vestido curto. Cobria suas coxas com meu cobertor.
E era linda.
Sentei-me ao seu lado. Sentia dor por causa dos pontos que o bardo havia feito para costurar a ferida em minha perna. Olhei-a longamente até conseguir falar.
- Fica calma menina... não chore... você perdeu gente querida naquele barco?
Ela me olhou, e pude ver raiva em seus olhos. Me disse que havia se livrado finalmente de pessoas que a maltratavam. Não lhe davam valor, fizeram com que ela, por várias vezes, tentasse acabar com sua própria vida. Mas agora o mar a havia libertado e eu a havia salvo. Seu olhar ficou tenro de repente, e eu corei.
- Qual seu nome meu salvador – Sorriu – e o que você faz da vida?
Lhe disse meu nome, e disse que queria ser herói. Ela sorriu disso, um sorriso bonito e meio malicioso ao mesmo tempo, com um traço de pureza. Nunca encontrei alguém que sorrisse como ela nos meus anos seguintes.
- E qual seu nome menina?
- Lucille. Mas você pode me chamar de Lucy.
Naquele dia voltamos à praia, e os restos do Fortuna já chegavam na areia. Lucy buscou um grande pedaço de madeira. O melhor e mais grosso carvalho que já vira. Mandou que lhe ajudasse a recolhê-lo, e eu o fiz. Levamos aquele pedaço de volta pra estalagem e ela me disse que eu deveria fazer uma nova espada, já que lhe contara que minha antiga apodrecera. Por semanas talhei a madeira até o trabalho estar terminado. E quando eu terminei, ela usou minha faca para talhar diversas runas por toda a extensão da arma. Ficou linda, mas ela se recusou a me dizer o que os símbolos significavam.
Foram alguns dos melhores meses da minha vida, os que se seguiram. O bardo me levou a conhecer diversas mulheres, que me mostraram prazeres que eu só havia ouvido falar. Lucy tornou-se minha melhor amiga e, por várias noites, vimos o sol nascer, perdidos em conversas e risos. Arrumei muitas brigas pela cidade, minha espada estando sempre comigo. Ajudei as pessoas que precisavam em tudo o que eu pude, e, mesmo que não tenha feito nada grandioso, o sorriso que eu recebia em pagamento fazia com que eu ganhasse o dia. Fui aos festivais, teatros, feiras. Foi um ano muito bom.
Antes que eu pudesse sequer pensar sobre o novo processo de seleção para a Academia da Federação, ele já se fazia presente. Lucy me desejou boa sorte, e o bardo riu e disse que eu não precisaria.
Naquele ano eu fui o vigésimo sexto a ser aprovado. Em todas as lutas eu sorri. Dispensei o escudo e lutei apenas com minha espada. Em cada luta me lembrava dos risos, dos momentos bons, lembrei dos meus amigos e da luta contra os goblins, lembrei de como éramos crianças com sonhos.
Naquele ano aprendi que dedicação e esforço são muito importantes para alcançar um objetivo, mas se o espírito não sentir prazer na empreitada, ela será muito mais difícil de suportar. Naquele ano entendi que mais importante que saber é acreditar.
Naquele ano relembrei como sorrir frente às adversidades.
(Escrito ouvindo The Unforgiven - Metallica)
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Por que Cair?
- Sim sim, foi dessa forma que decidi ir pra lá... fiquei sabendo que o método de seleção era extremamente rígido, mas mesmo assim, eu fui...
- Aposto que o senhor foi aprovado logo de cara!
- Bem...
E lá estava eu, e a capital do reino parecia me engolir em sua vastidão. Nunca havia estado em uma cidade tão grande, e cada ruela era mais povoada que um formigueiro remexido de saúvas. Mercadores nas ruas vendiam tudo, e podia ver ricos e pobres dividindo os becos. Havia miséria em cada esquina, mas o que realmente me chamava a atenção era a guarda real. Suas armaduras reluziam com o brilho do Sol, seus cavalos eram os mais bem tratados e suas armas davam a impressão de serem surreais, ou até, quem sabe, mágicas.
Caminhando ao lado de meu recém amigo bardo, consegui algumas informações sobre como me inscrever e sobre o processo de seleção anual para a Academia da Federação. Soube que o processo daquele ano seria dali cinco meses, de forma que comecei a procurar um lugar para treinar. E, com a ajuda do bardo, fui aceito no dojo do mestre Paul Hwang, um renomado treinador, conhecido por ter sido mestre de vários heróis de renome, antes que os mesmos fossem aprovados para a Academia.
E eu treinei. Nossa, treinei como um condenado à morte, cuja única salvação seria a aprovação. E, por todo aquele tempo, o treino e a seleção eram tudo em minha mente. Não fiz amigos, não conheci garotas, não me diverti. Havia apenas o suor, de manhã até a tarde, os ferimentos após cada treino, e o misto de satisfação e frustração após cada treino particularmente difícil.
Assim, o ano passou por mim como um pássaro que voa muito alto e não se consegue enxergar nada a não ser seus contornos. A seleção já era o presente.
Cinco mil candidatos reunidos em um gigantesco coliseu. Alguns dos mais conhecidos heróis do reino assistiam sentados em uma tribuna de honra. Estava nervoso. Meus joelhos tremiam, eu achava a armadura que haviam nos dado, simples camisões de couro rebitado, muito pesada. A espada de carvalho e o escudo de tília que nos deram pareciam estranhos ao toque. Eu não os sentia como a extensão de meus braços.
Mas era a minha grande chance e eu não iria desperdiçá-la. Os candidatos foram divididos em chaves com cem em cada. Os melhores de cada chave seriam os aprovados. Me preparei para o dia mais cansativo de minha vida. Entrei na grande arena, dividida em espaços menores, e me vi de frente para um cara que era um tanto maior que eu. Achei que fosse perder.
Venci.
As lutas continuaram durante todo o dia. A cada momento em que eu estava cansado pensava nos momentos de sofrimento e dor do treinamento, nos ferimentos, no sangue, no tempo gasto. Me mantinha de pé luta após luta. O suor escorria pelo meu rosto, e, por duas vezes, verti lágrimas durante um combate.
Assim, à duras penas, eu ia prosseguindo. A cada combate me aproximando mais do meu objetivo, e isso era o que me motivava. Queria a aprovação, queria ser herói, queria a glória. Lutei até meus punhos se cansarem, erguia a espada e o escudo, sempre me lembrando do sofrimento do treinamento. Cada adversário no chão era um passo para a grande vitória. Meu escudo estava lascado. A espada mostrava várias rachaduras, mas eu não me importava. Meu corpo estava coberto de hematomas, e por vezes cuspi sangue durante as lutas. Mas aquilo não era nada comparado ao meu treinamento.
Avancei e avancei, até a última batalha.
Lá estava eu, de frente para um adversário cujo rosto não importava. Eu era melhor. Tinha sangrado como um louco durante os treinos, abrira mão de todas as coisas divertidas e prazerosas da vida só para estar ali, naquele momento. Meu adversário não teria a menor chance, e, suado, com dores e um esgar de raiva no rosto, entrei em combate.
Fui derrotado.
Fiquei deitado no chão por um tempo que pareceu horas. Minhas costas tocando o chão duro, e meu suor e meu sangue escorrendo. As luzes se apagaram e os quinhentos aprovados deixaram o coliseu em furor, e eu ainda ouvia seus gritos de alegria e comemoração ao longe. Estava escuro e eu estava sozinho, e, por um tempo indeterminado, assim foi.
Até que ouvi música e passos, e o bardo se sentou ao meu lado. Eu chorava e ele sorria. Me irritei, gritei com ele, perguntei por que ele ria.
- Sorrio porque não tenho motivos para chorar meu amigo. Agora, me responda... seu treinamento, seus sacrifícios... valeram à pena?
Imergi em pensamentos. Chorava. Sentia raiva. Bardo maldito que sorria da minha desgraça. Como assim “valeu à pena”? Era óbvio que sim! Treinei, fiquei mais forte, jamais teria chegado na final se não tivesse sacrificado tudo por isso!
Como se lesse meus pensamentos, ele dedilhou seus acordes.
- Durante a luta você pensava nos seus sacrifícios? Pensava em todo o sofrimento do treino? Em como deixou de fazer amigos, se divertir, de conhecer garotas... tudo para vencer? Ah, amigo... como você poderia vencer, se tudo que carregava dentro de si era sofrimento, dor, mágoa, raiva...
Me levantei. No ano seguinte haveria outra seleção, e eu poderia desfrutar de alguns meses de férias antes de começar a treinar de novo. Mas dessa vez não faria do mesmo jeito. Não sabia ainda o jeito correto, mas tinha certeza de que iria descobrir.
Naquele dia aprendi a me levantar.
(Escrito ouvindo False Pretense – Red Jumpsuit Apparatus)
PS: Ufa! Três posts seguidos, e esse foi no prazo, rsrsrrsrs! Agora terei meu merecido final de semana de folga! Semana que vem tem mais Rolando os Dados e a continuação do Conto. ^^
Obrigado a todos que estão acompanhando. See Ya!
sábado, 4 de julho de 2009
O Esquecer e a Estrada
- Os verdadeiros heróis às vezes são esquecidos criança... mas eles não se importam com isso. Abnegação é algo que cada herói de verdade carrega dentro de si.
- Sei... então... foi depois que esse senhor faleceu que...
- Sim. Foi após a morte de Lorde Althair que eu decidi finalmente deixar esse vilarejo para trás e viajar o mundo.
A vida nos joga de um lado ao outro sem aviso, e não foi diferente comigo. Deixei o vilarejo às minhas costas, e à frente, a estrada. Não sabia exatamente onde gostaria de ir... tinha ouvido tantas histórias e rumores que desejava ver de tudo um pouco. E o meu sonho de ser herói queimava muito mais forte em meu coração. Assim, caminhei sem rumo, apenas com uma mochila nas costas e um sonho no peito.
Nas primeiras noites que passei em viagem, acabei por me hospedar em uma estalagem de beira de estrada. “O Andarilho” era o nome do lugar. Mesas empoeiradas e copos sujos. Comida embolorada. Iluminação precária. Uma atendente que devia ter vivido umas cinco vidas a mais que eu.
E, no canto do salão, um bardo.
Era alto, esguio, e trajava vestes de cor negra. Vestia uma capa esfarrapada vermelha por cima de suas roupas, e tocava o bandolim mais bonito que eu já havia visto. E a música que ele extraía das cordas era maravilhosa. Parecia que vinha de dentro do meu peito, e não de fora, entrando pelos ouvidos. Achei engraçado ele usar vários brincos em suas orelhas pontudas. Devia ser um elfo, ou meio elfo. Mais adiante eu viria a conhecê-lo bem, e ele me contaria sua história. Naquela noite era apenas um bardo.
E eu estava ali sentado. Olhava pela janela enquanto ouvia a música fluir. Estava estrelado ou nublado, não importa, e minha mente viajava em cada sentimento que eu já havia sentido. Saudade dos amigos, gostar de uma garota, medo da morte, a vibração da vitória. Não notei quando a música acabou e fui desperto de meu transe quando o bardo se sentou ao meu lado. Ele tinha estranhos olhos vermelhos por baixo de seus bastos cabelos negros. Ele me olhou e deu um sorriso triste, estranho.
- Pra onde vai, rapaz?
- Ainda não tenho rumo definido – gaguejei, ainda sobre efeito da sombra de todas aquelas emoções.
- Um andarilho vagabundo então? – sorriu – E o que espera da estrada?
Fiquei pensando em uma resposta alguns segundos. Ou minutos.
- Tenho um sonho. Vou seguir a estrada que precisar pra chegar nele – olhei em seus estranhos olhos – Quero ser um herói.
Ouvi então a gargalhada mais estranha da minha vida. Ainda a ouço antes de dormir ou no meio da madrugada, quando acordo, suado. O bardo começou então a me contar uma história, e era mais ou menos assim:
“Muitos anos atrás, quando viajava em um navio sem nome, o rei Letho chegou à uma ilha. Ele vinha sendo perseguido por diversos navios pirata e não tinha mais munição para os canhões. As velas de sua embarcação já estavam rotas, e seus homens sentiam fome e sede. A esperança os havia abandonado.
Mas, dentre todos os tripulantes, apenas um se mantinha altivo e positivo. Apenas um homem acreditava na vitória. Esse soldado foi o primeiro a pisar na ilha e tomou à frente quando a comitiva do rei, exausta, precisou explorar mais à fundo, em busca de comida, água e abrigo.
O soldado então, sempre em frente, atingiu uma clareira entre as gigantescas árvores que lá haviam. E, no centro do clareira havia uma gigantesca cabeça de pedra. Da altura de três homens, a cabeça era ornada por um belo elmo de batalha e seu rosto era o de uma mulher.
Era a cabeça da deusa da guerra, conhecimento e sabedoria.
Os homens do rei acamparam nos arredores da estátua e lá conseguiram comida e água. O soldado, por três vezes, rezou em nome da deusa, agradecendo. Os homens se dividiram em duplas e formaram turnos de guarda, pois sabiam que os piratas podiam tê-los seguido. E, na madrugada, eles foram atacados.
Vinte e oito piratas, todos armados com sabres e adagas. O cheiro de maresia impregnado em suas peles curtidas pelo sol inclemente. Fediam a rum e gritavam horrores. E metade dos homens do rei estava morta antes de se livrar da sonolência que os espíritos das madrugadas nos trazem. A esperança os abandonara novamente, e, nesse momento, até Letho esmoreceu.
Mas aquele soldado ainda acreditava na vitória. E ele lutou. Lutou como um deus guerreiro. Lutou como um poeta. Lutou como só alguém que não duvida da vitória pode lutar.
O soldado tombou. E com ele tombaram vinte piratas. Os outros homens do rei conseguiram vencer e afugentar os piratas restantes, e a madrugada finalmente se extinguiu, dando lugar à pálida luz da manhã.
E dos olhos da estátua vertiam lágrimas.
Ali, nos anos que se seguiram, Letho ergueu uma escola. Não uma escola qualquer, mas uma grande academia para aqueles que desejavam se tornar algo digno de ser lembrado. A Academia da Federação, como ficou conhecida. Apenas quinhentos entre os mais de cinco mil candidatos são aceitos a cada ano, e dali saíram alguns dos maiores heróis do reino. O nome do soldado foi esquecido, mas não seus feitos. E, nesse ano em que estamos, a Academia completa duzentos anos.”
E assim, terminada a história, eu já sabia pra onde devia ir. A estrada havia se desenhado na minha frente e eu sorri.
E, quando parti, havia ganhado um amigo e um companheiro na estrada. Pois os bardos caminham por aqui e ali, sequiosos por presenciar grandes histórias que possam ser contadas. Aquele bardo resolvera seguir seu caminho comigo, e, mais tarde, vim a saber que alguma coisa em meus olhos o fez esperar grandes histórias em meu caminho.
E posso lhe dizer, meu caro, aquele bardo não se arrependeu.