sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Escuridão

Esse conto de hoje foi escrito após um dia e meio de bloqueio criativo. É uma sensação MUITO ruim estar com três (ha! três!) ideias pra conto, uma pra quadrinhos e não conseguir começar nenhum.
Então resolvi seguir o conselho dos mestres e, com uma única caixa dágua, matar três coelhos.
O conto a seguir foi uma experiência/rito de passagem/técnica de desbloqueio.
Experiência porque é um tema do qual eu nunca li nem vi nada similar.
Rito de passagem porque segundo H.P. Lovecraft e corroborado por Stephen King, é uma necessidade pra quem deseja trilhar o caminho do escritor (uuuhl, que bonito).
E técnica de desbloqueio também seguindo conselhos de Stephen King, eu simplesmente sentei e escrevi, sem pensar em nada antes.

Tô postando caso alguém se disponha a ler (ficou meio grande, desculpem), porque em tempos de twitter, mais de um parágrafo já é considerado gigante, então...

Bem, boa leitura!
-x-


Escuridão

Ele acordou e abriu os olhos.
Pelo menos ele achava que os tinha aberto. Tudo continuava tão escuro quanto antes de ele (talvez) abrir os olhos.


Tentou fechá-los e abri-los novamente. A escuridão continuava. Levantou seu braço para tocar nas pálpebras, mas seu braço bateu em alguma coisa sólida logo acima.
Ele tateou e parecia algo como uma caixa, logo acima dele.
Ele não lembrava de como tinha ido parar ali. Seria um mecânico debaixo de um carro?

Não, ele não era um mecânico. Era um músico. Estaria então embaixo de caixas de som? Como será que seu show terminou assim?

Ele forçou a memória. Estava tocando guitarra um pouco empolgado demais e então...

Não, ele queria ser um músico. Desde criança. Mas acabou se deixando levar pela vida. Tirava notas não tão altas. Nem se divertia tanto.

Bom, mas ele podia deixar para pensar sobre suas frustrações depois. Agora ele precisa sair debaixo dessa caixa. Tentou empurrar para cima. Ela não se moveu.
Em sua resolução de ano-novo, ele tinha jurado que iria entrar na academia. Não dessa vez.
Mas em que época do ano ele está?

Suas lembranças mais recentes são as palavras irritante e colorido.
Tinha uma banda irritante e colorida, não? Mas ele achava que não tinha relação com isso. Ainda ouvia as bandas da época de sua juventude e torcia o nariz pra qualquer novidade.

Mas bem, irritante e colorido.
Tinha certeza que teria magoado alguém se usasse essas palavras numa mesma sentença. Ou teria realmente magoado alguém?

De nada adiantava, ele não iria repensar suas frustrações agora.
Empurrou com mais força. A tampa nem se moveu.

Espera, “tampa”? Que tampa? Com o que ele estava associando essa situação?
Era só uma caixa que havia caído em cima dele, sabe-se lá junto com quantas outras e que, milagrosamente, não o havia esmagado. Só isso.

Tentou deslizar para baixo. A saída estava bloqueada por ali. Tudo bem. Pelos lados também. Assim como acima de sua cabeça.
Era realmente sortudo. Esse espaço em que ele estava parece ser o único realmente seguro.

O que é de estranhar. Ele não era especialmente sortudo.
Não foi assim que ele passou toda sua juventude esperando por um chamado para a aventura que nunca veio? Enquanto esperava, seus amigos, esses verdadeiramente sortudos, receberam seus chamados e viajaram, se apaixonaram, se divertiram e sumiram.
Mas não ele. Nada de bom para... para... como era seu nome mesmo?

Bem, ainda estava um pouco em choque. Dali a pouco seu nome viria à mente. Onde estava, antes de se interromper?

Ah, sim. Como nunca, nem mesmo durante a faculdade fez uma “loucura”. Não, ele era realmente centrado nos estudos.
Exceto que não era, não é? Nunca nem chegou perto de ser um dos primeiros da classe. Refez algumas matérias e uma vez, quase um período inteiro.
Mas isso é compreensível, afinal ele estava aproveitando sua juventude ao máximo. Não tinha como ter tempo para os estudos.
Exceto que ele não estava aproveitando nada. Para onde foi o tempo de sua juventude?

Ainda não é hora de ser melodramático.
É hora de empurrar com um pouco mais de força. E mesmo assim a tampa (ele deixou sua mente chamá-la assim dessa vez) não se movia.
Começou a tentar lembrar novamente do dia que se passou.

Irritante e colorido... Claro! O maldito mascote do maldito desenho que... que... bem, sua filha assistia! Ela tinha mesmo ficado magoada quando ele disse sua opinião sobre o desenho. Ele lembra de ter se estressado de forma extraordinária no escritório (não era mesmo músico, afinal) e, quando chegou em casa, perguntou onde ela via graça naquele dinossauro idiota.

Nossa, como os adultos conseguem tão facilmente esquecer de quando eram crianças?
De qualquer forma, sua esposa disse que seria uma boa ideia se ele trouxesse uma pelúcia para sua filha de aniversário.
Parecia uma boa ideia mesmo.

Era assim que ele havia levado adiante seu casamento durante tanto tempo, afinal. Sem diálogos. Parecia funcional.

A imagem de sua esposa entrou em sua mente. Também sem nome.
Ele realmente a amava. Haviam se conhecido... na faculdade? É, na faculdade. Oras, era pelo menos um pouco sortudo. Ela era realmente bonita.
O “era” do pensamento anterior o deprimiu um pouco. O tempo não era conhecido por ser piedoso quando só porque as pessoas pediam.
Eles passaram seus onze anos muito bem, sem grandes sobressaltos, nem pra baixo, nem pra cima. É um preço que se paga pela estabilidade ou coisa assim. Aqueles amigos de colégio nunca souberam o que é estabilidade. Sempre muito felizes para em seguida ficarem muito tristes.
Tantos clichês começam com corações partidos.

Mas ele sabia exatamente porque nunca havia sentido o coração se partir. Ele nunca havia se entregado totalmente a ninguém. E isso o deprimia mais do que as minúsculas marcas de expressão no rosto de sua esposa.

Dessa vez, ele relutou um pouco em afastar seus pensamentos. Pra onde havia seguido sua vida? O que ele podia compartilhar com o mundo, caso escrevesse um livro?
Repassando rapidamente, sua situação atual parecia ser a única digna de nota.

Pois bem, se fosse escrever um livro sobre esta situação, como faria? Começando pela sinopse:



Pra isso ele precisava, primeiro, descobrir o que era sua situação.
Fatos: estava em um lugar fechado, cercado seja lá pelo que for.
Este lugar era muito abafado.

Ele começava a formular uma teoria, mas era apenas influência dos contos que leu quando era mais jovem. Malditos Lovecraft e Stephen King.
Nesse sentido, também poderia amaldiçoar Spielberg, por nunca mais ter conseguido entrar no mar tranquilamente.

Ah, como ele odiava quando sua mente divagava sem rumo. Ou era uma tática pra tentar negar a hipótese que havia pensado? Ele nunca foi mesmo de divagar sobre nada.

Não conseguia mesmo. Quando lia uma história pra sua filha, não conseguia colocar sentimento algum, simplesmente lia, como um orador. Ou no discurso daquela presidenta eleita naquele país de terceiro mundo onde o Stallone ganhou um macaco.

Tudo bem, divagando de novo. Decidiu verbalizar mentalmente sua teoria.

Tinha sido enterrado vivo!

Pareceu até meio bobo falando em voz alta, apesar de ter apenas pensado.
Ele não podia ter sido enterrado vivo, para isso precisaria ter morrido, ou quase. Os médicos estudam muito mais e com muito mais afinco que ele para se formarem. Esse tipo de erro não acontece mais.
Poderia ter ficado mais tranquilo se não tivesse lembrado da enxurrada de erros médicos que figuraram nas manchetes de jornais nos últimos dias. Mas esses eram causados por auxiliares de enfermagem.
Oh, droga, e se o acidente tivesse sido tão feio que ele fosse atendido apenas por um auxiliar de enfermagem? Nem mesmo atendido, diagnosticado. Ou seja lá que termo é usado pra alguém que chega ao hospital apenas pra ser encaminhado pro seu velório.

Socou a tampa de seu caixão (já tinha aceitado esse fato) com força, esperando que ainda não tivesse sido enterrado.
Sete palmos de terra parecem o suficiente pra abafar os sons de um administrador fracote e frustrado pela vida. Parou de socar.

Por que ele voltaria, afinal? Quem sentiria sua falta?
Sua esposa? Sua filha? Sua não-amante-por-covardia-na-última-hora?

Teria sido realmente covardia? Apesar de não haverem picos de felicidade e satisfação no seu casamento, ele tinha afinal de contas recusado todos os convites para happy hour de seu trabalho (exceto o primeiro, tradição pra quem quer se enturmar) para voltar para o lado dela.
Ele tinha tido todos aqueles sonhos não concretizados, mas no fim de sua estável jornada, estava ao lado dela. Poderia dizer que havia valido a pena?
Achava que sim. Não, tinha certeza que sim. Sua esposa era realmente sua fonte de maior felicidade. Por que ele se enganava, falando que nunca se entregou totalmente?

Ele lembrava de quando a havia pedido em namoro. De como tremia quando tentou convencer a jovem aspirante a jornalista a sair da casa de seus pais e se aventurar com o recém-formado administrador. Lembrou com clareza de como sorria largamente quando a via usando o anel que havia comprado.

Sim, havia amado e sido amado com intensidade. Ele voltaria pra ela.
Sua filha gostava de desenhar. Na maioria das vezes aquele dinossauro idiota, que ele nem achava tão idiota assim. Só estava realmente estressado naquele dia.
Lembrou com perfeição quando sentiu seus chutes, ainda na barriga de sua esposa. De como seu choro parecia infinito nas noites de seus primeiros meses. De seus primeiros passos, de quando falou pela primeira vez (“Mamãpapá”, apesar do que diziam seus amigos, ele acreditava que ela não pedia comida, mas sim havia chamado os dois), do seu primeiro dia na creche e agora, há pouquíssimo tempo, de quando entrou no ônibus para a escola.

Ela tinha crescido tão rápido.

E ontem era seu aniversário. Foi. Ontem foi seu aniversário. E ele havia comprado sim, o dinossauro não tão idiota. E ela realmente havia ficado muito feliz.

O que o pouparia de pedir desculpas. Mas ele o fez assim mesmo. Acabou lembrando dos desenhos imbecis (estes sim) de sua própria infância. E como também não gostava quando eram criticados.

Ela gostou tanto que saiu correndo para a casa dos vizinhos, com um filho quase na idade dela. Parece uma daquelas histórias de comédias românticas americanas, onde os protagonistas se conhecem e são melhores amigos desde a infância.
Normalmente são vizinhos de lado. No seu caso, eles moravam na casa em frente.

Ah, as crianças, nunca ouvem os pais. Eles sempre diziam que ela devia escovar os dentes. Mas ela só passou a escovar todos os dias quando o bendito dinossauro assim o disse.

Pensou que antes disso, ele devia ensiná-la a olhar pros dois lados antes de atravessar.

Ele sempre achou clichê, mas realmente tudo acontece num borrão, de onde é difícil extrair as imagens com clareza.
Lembrava basicamente dos sons. Do grito de sua esposa. Seguido do grito de sua filha. Dos pneus cantando.

Antes da audição deixar o tato ter seu momento, ela o presenteou com o som de sua filha, empurrada por ele, caindo na grama do outro lado.
Ele pensou que talvez ela tenha ralado o joelho, enquanto rolava por cima do capô. Pensou que ela iria chorar um pouco agora e mais um pouco depois quando sua esposa passasse o remédio. Isso enquanto caía no asfalto, atrás do carro.
Mas ela não iria chorar muito. Não sua menina. Havia puxado a força do olhar de sua mãe. Os olhos dela, o nariz dele, era o que sempre diziam.

E com os olhos de sua esposa em sua mente, a escuridão chegou.


E agora estava ali, pensando que sua vida valeu muito a pena. Amava muito sua esposa e sua filha. Demais. Mas a teria conhecido de qualquer forma. Poderia ter aproveitado bem mais seu tempo.
Queria poder dizer isso à sua filha. Depois de tudo, de tanta racionalidade, havia começado a acreditar em almas gêmeas.
Queria dizer isso à sua esposa também.

Nem se importava tanto com sua situação atual. Não importava se alguém havia cometido um erro e agora ele estava ali, incapaz de dizer o que sentia às pessoas mais importantes de sua vida.
Ele pensou mais uma vez nos olhos de sua esposa e fechou os seus. Que talvez nem estivessem abertos, pra começar.
E agora ele via luz, apesar de ter certeza que seus olhos estavam fechados.





– E isso é tudo?
– Sim. Foi aí que acordei.
– Entendo...
– Me diga... você acredita em mim, senhor?
– Claro que acredito, mas você sabe que não há como provar, não é?
– Sim... E-eu só queria que alguém soubesse que... que...
– Não se preocupe, senhora, algumas pessoas saberão e algumas acreditarão. É isso que desejava?
– Sim, acho que seria isso que ele desejaria também... Sinto que era.
– Pois bem. Acho que vou andando, agora.
– Não quer mais um pouco de suco, senhor? Está tão abafado hoje...
– Não, obrigado mesmo, senhora. Mas eu preciso ir. E sinto muito pela sua perda.
– Ahn, obrigada. Mas... Desculpe, mas acho que não sou mais “senhora”.
– E eu ainda sou jovem demais para ser “senhor”, moça. Temos um acordo?
– Hehe, claro, me perdoe. Como devo chamá-lo?

– Pode me chamar de Tom. Tom Strange.


5 comentários:

OmniNosk disse...

Muito bom!!! Continue assim!
Tô aqui firme e forte acompanhando!!!

Rodox disse...

Muito bom cara! Ficou genial! Continue melhorando! Abração!

Rafero disse...

@Omninosk e @Rodox Powa, agradeço pelos elogios e pela força de vontade de ler tudo ahuaha xD

Marcus Mattos disse...

Foda!!!!
Os momentos que esse cara repassou sua vida...
Cara, me coloquei na situação e achei simplesmente fantástico.
Continue assim...
Idéia brilhante e desenvolvimento surpreendente.
Espero continuação e de boa, vc simplesmente sentou e escreveu isso?!
Abraço

Rafero disse...

@Marcus Cara, eu quase chorei com seu comentario xD Assim, continuação do protagonista acho que nao rola, mas do Strange sim =D
Pois é, simplesmente sentei e deixei sair, vc devia experimentar =D
Abração!